De Cabo Verde a Porto Santo… Por Alfredo Monteiro .

Diz o poeta que é “pelo sonho que vamos e chegamos…”. Pelo projecto da UASP, “Por mares dantes navegados”, chegámos a Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e ainda “entre perigos esforçados” ao ilhéu das Rolas onde pisámos a linha do Equador! E, em meados de Setembro do ano em curso, atingimos o arquipélago da Madeira e Porto Santo, um porto seguro. Mas, o nosso percurso “épico” continuará, porque, como disse Camões “…. Se mais houvera lá chegara…” E há, graças a Deus. No próximo mês de Janeiro, um pequeno grupo de valorosos  e audazes  caminheiros vão desafiar as “picadas” das matas de Angola e “endireitar” as suas veredas… ao encontro dos irmãos locais.

Para a Madeira e Porto Santo os “chamados” foram mais e os “enviados” também! Novas rotas aéreas, nas “caravelas” da TAP, novos caminhos marítimos no “lobo Marinho”, outro chão e caminhos florestais… Todos partiram com entusiasmo e fortes motivações, contribuindo, deste modo, para consolidar a identidade e missão da UASP. Recuperando o primeiro texto de apresentação do nosso excelente programa de viagem e jornada cultural, o Manuel Gama, guia sábio e amigo, companheiro permanente, com a sua simpática esposa, escreveu que decidimos “descobrir” a Madeira e Porto Santo 600 anos depois de Gonçalo Zarco e Tristão Vaz Teixeira… Navegadores que nós homenageámos e celebrámos a nossa “descoberta” com fé, porque também eles consideraram os descobrimentos uma obra cristã. E que depois, muito naturalmente, assumiu motivos políticos e económicos.

… E assim foi! “Descobrimos”, com ânimo elevado, a dimensão cultural, patrimonial, paisagística, gastronómica e religiosa de uma terra e de um povo. Não vou repetir o que outros companheiros de viagem tão bem descreveram as nossas aventuras, visitas culturais e celebrações litúrgicas. Museus, conventos, capelas e Igrejas; jardins, cabos, despenhadeiros, levadas, cachoeiras e cascatas; estradas florestais, atalhos e montanhas; mar e praia de areia branca; paróquias, vilas e cidades… Romarias e devoções populares, como a “Memória do Sermão da Bagaceira na Ribeira Brava”. Conta-se que “ Em tempos idos, a ribeira ameaçava transbordar e assim destruir a vila. Na aflição, o povo com o pároco foram em procissão com São Bento até ao lugar da bagaceira. O pároco tomou o báculo de São Bento e atirou-o para a ribeira que não transbordou e a vila ficou a salvo da fúria das águas. Mais tarde, o báculo veio a ser encontrado no adro. O povo atribui o milagre a São Bento. Todos os anos, na festa do Santo a procissão detém-se neste local e aí é recordado este acontecimento… ”A história de Pedro da Guarda é linda e singela. O frade menor franciscano que, em 1485, “procurando um lugar mais favorável à oração” veio para o Convento de São Bernardino, em Câmara de Lobos. Romeiros e peregrinos, durante séculos, agradeciam “as graças e os milagres recebidos pela sua intercessão”. O frade menor que, na alegria e simplicidade franciscana, dedicava o tempo, na cozinha, ao serviço dos irmãos e dos pobres e, no silêncio da gruta, à oração… e o povo de Deus “canonizou”…

“Descobrimos”, igualmente, as comunidades locais através das celebrações eucarísticas e do contacto pessoal com os seus párocos. Tendo presente a visita ao Bispo da Diocese do Funchal, Dom António Carrilho, permitam-me um pequeno apontamento histórico. O 1º Bispo da diocese foi D. Diogo Pinheiro, mas nunca partiu para o arquipélago! Porém, em 1516, enviou lá o Bispo D. Duarte para ministrar o Crisma e sagrar a Sé. O primeiro prelado a residir na diocese do Funchal foi D. Frei Jorge de Lemos, dominicano, em 1558! D. Frei Gabriel, monge de Cister, chegou ao Funchal em Maio de 1671. Apesar da sua idade avançada efectuou visitas pastorais e deslocou-se a Porto Santo, o que nunca tinha acontecido! E D. Frei João do Nascimento, franciscano do Convento de Varatojo, foi confirmado Bispo do Funchal, em 1741, por Bento XIV. Levantou, desde os alicerces, o palácio episcopal das ruínas do anterior, causadas pelo tremor de terra de 1748. A 31 de Janeiro de 1533 o Papa Clemente VII concedeu a honra de Metrópole à Catedral do Funchal. (História da Igreja em Portugal, de Fortunato de Almeida).

E concluo, dizendo que a União das Associações dos Antigos Alunos dos Seminários Portugueses (UASP) que celebrou, nestas jornadas da Madeira e Porto Santo, 7 anos de vida, como, certamente, se recordam ao partilhar do “Bolo de Aniversário”, o “pequenino” bolo de mel, especialidade local, que, depois, se multiplicou (!), tem sido fiel à sua “Identidade e Missão”. Não só tem cumprido a “vontade de fazer memória das origens”, mas tem, sobretudo, procurado “reflectir sobre o momento que nos é dado viver…”. O que quer que seja, é, sem dúvida, “Por mares dantes navegados” o mais belo projecto de todos até agora concretizados. Momentos marcantes  de fé celebrada e vivida, lá longe, nas periferias reais e existenciais, algumas de pobreza extrema, em terras escaldantes de África. Aí levámos o nosso abraço de proximidade, amigo, fraterno e solidário, de encontro entre povos irmãos…

Alfredo Monteiro
(antigo aluno franciscano)

 

3 thoughts on “De Cabo Verde a Porto Santo… Por Alfredo Monteiro .

  1. Maria de Fátima Graça
    Sexta, 26 de Outubro de 2018 at 15:57

    Meu querido amigo. Grande a vossa acção. Belíssima a sua crônica. Um abraço

  2. José Oliveira Gomes
    Sexta, 26 de Outubro de 2018 at 14:31

    Olá Alfredo,

    O cronista-mor, Fernão Mendes Pinto, não diria melhor, pois a célebre frase, “Fernão Mentes… minto”, é bem elucidativa da narrativa romanceada, razão pela qual não lhe ficas atrás.

    Romancear, e até transmitir um som poético às coisas, é também uma forma de contar histórias, e sentimentos vivenciados nas experiências com o próximo.

    Isto também é digno de constar nos almanaques de viagens. Saudações Amigas e Parabéns

    J Gomes

  3. Virgilio Faria
    Sexta, 26 de Outubro de 2018 at 09:59

    Excelente reportagem e melhor relato.

    Um grande abraço,

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