Cronica 3_DONGA: É difícil subir ao Paraíso, por Luís Matias .

A noite foi curta, mas muito bem dormida – Talvez todos tenham estranhado a cama, mas ninguém deu por isso. A especial benesse de meia hora no levantar de hoje, no meu quarto, não teve efeito, pois às 6 da manhã o pessoal estava completamente preparado para o dia. Às 7h em ponto tilintou a pequena, mas estridente sineta, a dizer que estava na hora do “mata bicho” (expressão com que se designa o pequeno almoço em Angola). A pequena campainha que tem lugar cativo numa mesa auxiliar da cozinha. O tocar é discreto na mão de quem a opera, mas gera uma obediência irrepreensível, que mais parece subserviência: menos de 1 minuto após, a acrescentada mesa da refeição estava ladeada dos seus comensais atrapalhados, no início, pela distribuição dos guardanapos. Cada guardanapo de pano está colocado num anel, definitivo para os da casa, improvisado para os chegados e, em cada anel, o desenho de um animal que o torna reconhecido pelo seu proprietário. É curioso que, de forma natural, cada um assumiu o seu lugar à mesa de acordo com o dia anterior, e assim se manteve até ao fim.

A bênção da mesa e o agradecimento é sempre assegurada em cada dia, espontaneamente, por um comensal. O pequeno almoço é variado. Sempre tem fruta, pão, margarina, queijo, café, leite em pó, chocolate, chá…

A refeição foi um misto de alegria, surpresa e interrogação e expectativa sobre o que se iria passar. É assim o início de qualquer desconhecido. Foi animada, como todas as outras nos 12 dias de navegação. O grupo, incluindo navegantes e missionários, passou a ser um grupo. Com as suas picardias, geralmente gostosas, fruto da diversidade de perfil individual, idades e experiências, a família instalou-se no que respeita às relações e objectivos. Comeu-se e foi comunicado o planeamento do dia.

Aqui, tudo é prático e conciso. Levantada a mesa e arrumadas as alfaias, com a ajuda de todos (os que cabiam na cozinha), logo de seguida e sem qualquer espera ou intimação, estávamos na capela a rezar Laudes, de forma muito organizada e seguindo o livro de ofício. Assim seria diariamente, orientadas rotativamente por uma das manas residentes da missão, com toda a mestria e responsabilidade. Duas guitarras faziam o acompanhamento nos momentos certos (a do Pe. David e a minha). Deu para perceber que a maioria dos navegantes não estavam completamente familiarizados com este ofício, bem como com as vésperas, mas se no primeiro dia pôde constituir uma certa surpresa, no segundo consolidou e nos seguintes fazia parte da vida quotidiana e já se impunha como necessário ao ritmo do dia: Faltar à oração da manhã, seria um dia já incompleto.

Do desenrolar do dia estava então nas previsões um café no centro da cidade do Sumbe, num aprazível lodge da praia, chamado “Sol Mar” mas que aqui no grupo ficou de imediato conhecido pela alcunha entre os que conhecem o lugar: “o Setas”. Saímos da Pedra Um, constatando agora cruamente a indizível paisagem urbana, logo aqui na vizinhança, e por todo o perímetro visível de qualquer lugar. Pobreza, degradação, desorganização, lixo, cheiro. Mas pessoas simpáticas, cumprimentavam porque conheciam o “cavalinho Branco”, tinham um sorriso, um olá… Descemos a difícil picada da comarca (a penitenciária), lá ao fundo no entroncamento com a EN 100 que passa no centro da cidade. Está completamente degradada, como estão os edifícios sobranceiros, as encostas das montanhas adjacentes e em geral tudo. Com excepção do templo da IURD, que será o edifício visivelmente mais luxuoso do quarteirão – Fazem questão de exibir uma espécie de luxo absurdo no meio da pobreza e degradação, como uma espécie de imagem de marca.

Depois de passarmos o edifício mais alto da cidade, construído no tempo colonial e agora em ruinas e desocupado, entrámos na avenida central, com melhor piso porque foi asfaltada há cerca de 3 anos e mantém-se em bom estado. Passámos junto do miserável hospital central (ainda colonial), pelo casco central e colonial da cidade com comércios diversos, de onde se destacam os edifícios dos CTT, escola primária e o mercado municipal, intacto e ainda em funcionamento, que ainda exibe na frontaria redonda CM NR (Câmara Municipal do Novo redondo – era assim que se chamava a cidade do Sumbe no tempo colonial). Um pouco mais à frente à esquerda, exibe-se um moderno edifício com vidros espelhados, a destoar do entorno por vistoso, que é a sede municipal e provincial do MPLA, a ditar visualmente nobreza e poder. Ao chegar à praça Agostinho Neto encontramos a segunda peanha de sinaleiro da rua, contudo, nem uma nem outra, ocupadas com aquelas figuras onde a reminiscência nos fez recuar nos nossos idos tempos da Europa.

Curvámos à esquerda, passámos diante do novo complexo da polícia, cuja grandeza é aniquilada pela cor mortiça e institucional que o reveste, um azul apagado; subimos ao lado do hotel Kalunda; do tribunal; e ao lado do palácio/residência do Governador (onde em tempos jantava de vez em quando e ia ver os jogos do glorioso); num plano mais elevado que o do palácio, ergue-se a linda catedral do Sumbe. É uma espectacular obra do famoso arquitecto Francisco Castro Rodrigues (recentemente falecido em Lisboa – em 2015), também o arquitecto que desenhou a cidade do Lobito. A Catedral é uma espécie de sólido triangular, erguida num ponto alto sobranceiro ao mar, construída em 1966 e dedicada a Nossa Senhora da Conceição. É esteticamente um edifício futurista, sem dúvida a mais bonita edificação da cidade. É funcional, com uma arquitectura não só requintada do ponto de vista estética mas prática; ventilação natural, elementos de iluminação natural relevantes, vitrais, altura e forma dissipadora do calor, e uma maravilhosa vista sobre o mar, se tiver corria da cortina da grande janela/vitral por detrás do altar-mor. Elementos estéticos criativos, como o coro alto e respectiva escada em caracol, a pia baptismal e o muro redondo-côncavo que a envolve e faz a ligação com a sacristia. Visitámos pormenorizadamente a catedral e a envolvente.

E calcorreámos a marginal em cerca de metade, para chegarmos ao dito “Setas” e degustar o nosso saudoso Delta. A marginal é uma avenida plana, com um hotel em cada ponta (de construção colonial). Está repleta de coqueiros do lado esquerdo (quem a percorre a partir da catedral). Os coqueiros, em quase toda a extensão da avenida, invadem praia dentro, integrando na urbe uma paisagem mítica tropical. É, sem sombra de dúvida, o local mais aprazível desta cidade.

Transpomos a portada de madeira rustica do Setas e entramos num espectacular jardim tropical, polvilhado de jangos cobertos de capim, uns pequenos para uma mesa, outros enormes para espaço grossista de restaurante. E através destes, passa-se para trás, onde uma enorme superfície coberta de telheiro rústico alberga um espaço de eventos, de um lado, e jardim do outro, com piscina. Todo o lodge está em cima da praia, sendo que esta parte de trás está mesmo frente ao mar. Aqui contactámos a primeira vez, cada um, com um maço de notas Kwanzas. Os 25.000 Kz em notas de 1000 e 2000 deixam os portadores de boca aberta: tanto dinheiro… ao câmbio conseguido… 58 € (hoje ao câmbio oficial 70 €).

Feita esta introdução, rumámos ao bairro do Chingo, na picada do aeroporto. É o maior bairro urbano do Sumbe, mesmo no sopé norte da montanha. Fomos mirar rapidamente um enorme mercado, com uma parte formal e estruturada, e o dobro disso informal, do lado de fora. Levámos ali o grupo com um objectivo um pouco perverso, temos de confessar, que foi o chocar e, apesar de ser muito pior na época das chuvas, creio que lográmos o intento. No Mercado do Chingo vende-se de tudo… Ray Ban (falsos), catanas, frigoríficos, tudo o que é tachos, ferragens, electrónica e produtos alimentares a granel (Uma lata de farinha, de açúcar, um monte de tomates, um balde de batata doce, 4 mangas, um cabrito…). O pior que se pode ver é a carne e o peixe (de revirar o estômago…), cheio de varejas, num ambiente naturalmente quente, ao ar, em cima das bancas onde a higiene não consta no dicionário… e o peixe seco a empestar o ar com um odor nauseabundo, que misturado com o característico cheiro de esgotos (visíveis logo do lado de fora), tornam o ar irrespirável…

E ao invés, o mais bonito de se ver são os tecidos africanos, empilhados e devidamente dobrados, ou estendidos para se exibirem os seus garridos padrões.

Transpõe-se os portões para o exterior, e o mercado continua como se ainda estivéssemos dentro. Todo o tipo de alimentos; mortos, vivos e redivivos, quando nos mortos as lavas se apoderam e lhe voltam a dar vida. Fruta, local, essa sim do melhor que há; roupas de todos os feitios, muito ocidentais made in China; e todo o tipo de objectos espalhados em panos ou plásticos onde houver um pouquinho de chão disponível, em barracas organizadas ou não; todo o tipo de actividades de costura a cabeleireiros… Aqui, tudo no meio daquele às vezes irrespirável pó típico destas latitudes mas, asseguro-vos, é exactamente o mesmo cenário no meio da lama, onde apenas aumenta a imundice. É a sobrevivência. E curioso: quando se “marralha” o preço e se compra na tenda seguinte, provavelmente ao mesmo preço porque já se percebeu ao fim de 5 ou 6 tentativas está tudo combinado, se ali já não tem o que a vizinha na outra tinha… deixam de ser concorrentes, passam a ser aliadas e uma cede à outra sem qualquer resquício de ressentimento, como se o negócio fosse o mesmo e só um. Vimos isto noutros locais, como os mercados de fruta ao longo das estradas.

Fez-se tarde para o almoço. O grupo separou-se neste final, por afazeres diferentes em outros locais da cidade e, quando regressámos à Pedra Um, já a barriga pedia quase lanche (que não havia). Almoçámos, tarde, por conseguinte. E do programa fazia parte uma tarde de trabalho em tarefas múltiplas na missão. Foi assim que se improvisaram ali electricistas, mecânicos, arrumadores, e até agricultores que fizeram mais mal que bem ao milho que ali estava tão certinho… Não se pode cultivar lá como cá. É errado pensar que as mesmas plantas crescem da mesma maneira em latitudes tão diferentes. Mas aprendemos com isso.

Mudaram-se 4 pneus ao primo do “Cavalinho Branco”, que não estava ferrado adequadamente para as agruras da dureza dos dias seguintes. Fez-se manutenção ao nosso heróico cavalinho, que andava completamente entupido, porque o gasóleo aqui é péssimo e a poeira das estradas entranha-se também por dentro. Ficou novo. E prepararam-se todas as coisas para o brutal carregamento que no dia seguinte íamos levar para a montanha.

Às 18 horas, quando caiu a noite, fomos a pé uns 500 metros até à igreja do bairro da Pedra Um, próximo também do Seminário Maior, participar na Missa com a comunidade da paróquia. Presidiu o Pe. Artur, e concelebraram o Pe. David e outro padre da paróquia. A celebração foi animada pelos escuteiros, e o termo, é mesmo “animada”, porque como acontece habitualmente por aqui, são vibrantes as celebrações nestas comunidades. Antes de terminar, todo o grupo foi apresentado, e convivemos com a comunidade numa contagiante e intensa alegria. Ouvimos resumidamente a história da construção daquela interessante igreja, e de como só se acabou com o dedo, decisório e técnico, dos nossos missionários Ondjoyetu.

O jantar foi animado dentro da serenidade de família e, como já sabem, constituído de sopa boa, fruta variada e pão. E introduziu-se aqui um ingrediente bastardo para acompanhar esta ementa, mas necessário para repor os níveis de líquido… a nossa Cuca bem fresquinha, sobre a qual, alguém disse ser a melhor e mais segura água de Angola. Depois da refeição juntaram-se todos os donativos trazidos nas circunstâncias já referidas, separaram-se por tipo, e depois o que seria para levar à Donga no dia seguinte e o que ficaria ali na Ondjoyetu. E a cama esperava-nos para dormir depressa e bem, porque no dia seguinte sabia-se da primeira verdadeira prova de fogo. O dia para os responsáveis é sempre mais longo, entra pela noite dentro, pelo que o Pe. David, eu próprio e mais dois ou três companheiros navegantes e da Missão, ficámos ainda a ultimar questões e planeamento para o dia seguinte. E como o trabalho não acaba, decidimos deixar algum para o dia seguinte!

Luís Matias

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