A felicidade está mais em dar do que em receber! .

Ao concluir-se a Vª etapa do projeto “Por mares dantes navegados” que nos levou, em dois grupos de 12 participantes cada, à missão de São José do Gungo, na diocese do Sumbe, Angola, recordo, com emoção e gratidão, as palavras de São Paulo, quando se despedia dos anciãos de Éfeso: «Em tudo vos demonstrei que deveis trabalhar assim, para socorrerdes os fracos, recordando-vos das palavras que o próprio Senhor Jesus disse: ‘A felicidade está mais em dar do que em receber’» (Act 20,35).

No contexto dos Actos dos Apóstolos, ‘fracos’ são os pobres e os economicamente débeis, expressão adequada para caracterizar as populações das montanhas do Gungo, campo de trabalho pastoral e humanitária da missão Ondjoyetu, fruto de uma geminação entre as dioceses de Leiria-Fátima e do Sumbe.

A missão de São José do Gungo serve uma comunidade de aproximadamente 34 mil pessoas, dispersa pelas montanhas, em cerca de 80 aldeias, numa área de 2100 km2, maior que o território da diocese de Leiria-Fátima, com uma extensão máxima de 82 Km. Para fazer o caminho que vai do Sumbe à sede da missão, na Donga, uma distância de 130 km, são necessárias, pelo menos, 8 a 9 horas (seis e meia das quais para percorrer 50 km de picada)!

E dava por mim a contemplar a beleza daquelas paisagens e a simplicidade acolhedora daquele povo… e uma pergunta me trazia de volta ao seu quotidiano: quanto trabalho e dedicação, quantos obstáculos e resistências se tiveram de vencer para chegar aos limites da província do Cuanza Sul, entrar em relação com aquele povo para acolher e ser acolhido, e começar a fazer caminho com ele no meio das suas dificuldades e carências, mas também das suas alegrias e esperanças, fazendo-lhe sentir e acreditar que a boa e feliz notícia de Nosso Senhor Jesus Cristo é para eles e que eles mesmos são seus destinatários principais e protagonistas da sua Mensagem! É certo que a Missão é anterior à Independência e que, com a guerra, tudo se complicou…

Mas partir, nos anos noventa, com desejo de servir o Reino de Deus, ser conduzido àquelas paragens e aceitar as suas exigências, diz-nos da seriedade e radicalidade da entrega e da disponibilidade para servir em todas as circunstâncias… Ali, de pouco ou nada vale o gosto por actividades radicais, tão ao jeito da nossa cultura ocidental: os desafios daquele trabalho pastoral assumem outras proporções, pois não são a prazo nem têm horários, para depois se regressar à “zona de conforto”.

Para trabalhar em tais condições não chegam voluntarismos e entusiasmos de momento ou de curta duração, são necessárias razões mais profundas! Só homens e mulheres tocados pelo Evangelho de Jesus poderão fazer suas as fragilidades daquele povo e, na simplicidade e entrega à causa do Reino, criar empatia com as pessoas, suscitar e entrar em relação com aquela ‘juventude de diversas idades’ para os servir na multiplicidade das suas carências e potenciar o seu crescimento humano e cristão.

A missão tem cerca de 80 aldeias; em 65 delas há centro de culto e quase todos têm oração comunitária diária; destes, mais de metade tem celebração dominical sem padre. Os centros de culto estão, por sua vez, organizados em 11 zonas pastorais, com os respectivos catequistas gerais e adjuntos e mais 45 catequistas locais.

Pelo trabalho pastoral ali desenvolvido, primeiro pelo P. Vítor Mira e agora pelo P. David Nogueira, acompanhados por muitas e muitos missionários, dou graças a Deus e peço a Maria que os proteja e conduza nos caminhos da Missão.

P. Armindo Janeiro
Missão do Gungo, Sumbe, Angola 2019

2 thoughts on “A felicidade está mais em dar do que em receber! .

  1. Luís Matias
    Sábado, 27 de Julho de 2019 at 11:53

    Este é o texto, é um importantíssimo relato, que faltava à extensão do já escrito em múltiplos outros relatos, visões e sentires. E por mais que se diga, não se consegue dizer tudo. É muito mais rica a beleza humana, da paisagem, da alma de cada um dos intervenientes naquele lugar do mundo, radical, belo e sofredor. São contradições a mais, as que embelezam a alma do ser humano, onde radica a beleza do Criador, e os Seus insondáveis desígnios.
    Terra de Missão, é ao lado da nossa porta, quiçá dentro de nossa casa, é o desígnio da Igreja toda.
    Mas o Gungo, meus amigos…
    Tenham a ousadia de experimentar!

  2. Sexta, 26 de Julho de 2019 at 23:43

    Saudações amigas ao grupo dos ” 10″ regressados, em Paz e Bem, das longínquas periferias….
    Pela leitura desta bela crónica do Pe. Armindo Janeiro tornam-se mais visíveis as difíceis condições do trabalho missionário em terras africanas. Só o elevado sentido de missão, o Amor a Deus, à Igreja e aos irmãos mais pobres dão força aos missionários.
    Os cristãos e católicos, no conforto das nossas paróquias, com acesso fácil às celebrações litúrgicas e aos sacramentos, precisam de conhecer e valorizar estas vivências da Igreja em África, através da oração e da acção solidária…..…….
    Abraço amigo e fraterno
    Alfredo

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