A latere… Da V etapa de “Por Mares Dantes Navegados”- PORTO SANTO, por A. Vinhais .

Pessoalmente, aguardava com alguma expetativa a tarde do penúltimo dia do bem preenchido programa da visita que a UASP – União das Associações dos Antigos Alunos dos Seminários Portugueses, realizou no âmbito da IV etapa do seu projeto “POR MARES DANTES NAVEGADOS” à Madeira e Porto Santo. É que esse dia projetava alguma liberdade aos participantes, sugerindo o cardápio turístico distribuído uns mergulhos nas mornas águas da ilha do Porto Santo.

À parte da banheira e de um ou outro poço pouco profundo bem delimitado e sem correntes significativas, alimentado pelo pachorrento e bucólico ribeiro da aldeia, o ribeiro do Porto, onde me banhava em dias de canícula estival, não sou nada dado a mergulhos em águas tumultuosas, mesmo em dias em que aparentam estar tranquilas e inofensivas.

Assim, após uns dias bem preenchidos em grupo, mas preso à sua disciplina, ansiava já uma incursão pelas agrestes paisagens porto-santenses, fosse a solo ou com companhia adequada para o percurso, que entretanto havia selecionado no mapa que logo pela manhã desse dia solicitei na receção do hotel. Aparentemente coisa pouca, cerca de cinco quilómetros para cada lado.

Postos ao corrente alguns dos participantes no périplo insular no decurso do almoço no restaurante Salinas, apenas um ex-publicano dos tempos modernos que não obstam a que não continuem a ser vistos como Mateus o era aos olhos do povo judeu, como eu próprio, aceitou o repto, não sem que as suas caras-metades levantassem algumas reticências.

Sem qualquer preparação prévia partimos do Hotel Praia Dourada, em Vila Baleira, rumo ao Porto de Frades e ao Calhau da Serra de Fora, conscientes de que a Serra de Dentro não cabia no espaço temporal de que dispúnhamos e convictos de que ali chegados, regressaríamos pelos caminhos previamente trilhados.

Encetado o ascendente caminho das Casinhas rumo à serra, cedo o sol começou a fazer estragos incutindo no companheiro de viagem uma sede que o menu do almoço não justificava e começamos a pensar onde nos poderíamos abastecer. Finalmente encontramos um estabelecimento multi-disciplinar que vendia água. Adquirimos duas garrafas, uma com água bem fresca para o Alfredo Morais e uma natural para mim próprio, defendendo a teoria de que a água à temperatura ambiente não desperta tanto o mecanismo de regulação da temperatura corporal que a água gelada induz inversamente, produzindo assim mais calor.

Ingeridos uns goles, continuamos a marcha rumo a um destino intermédio, a capela da Senhora da Graça, que ficava a uns duzentos a trezentos metros do estabelecimento, via largas dezenas de degraus serra acima.

– Oh Morais, acha que devemos refrear o ritmo? – Perguntei.
– Não, não. Vamos bem.

Contudo, vencidos os primeiros degraus, disse o Morais, visivelmente cansado e a destilar água por todo o lado, provavelmente consequência direta da ingestão da água gelada:

– Oh Vinhais, aguarde que vou tirar a camisa.
– Está bem. Temos muito tempo!
– E você não tira? Olhe que fica melhor. – Acrescentou o Morais.
– Não, não, respondi. Estou bem, além de que se o fizesse apanharia um escaldão dos antigos que evito a todo o custo.

Após uns momentos de descanso prosseguimos e atingimos o primeiro objetivo, a Capela de Nossa Senhora da Graça, que se encontrava fechada mas que haveríamos de visitar pormenorizadamente integrados no grupo da UASP no dia seguinte. As vistas eram de convidativa envolvência para bater umas chapas modernas, o que fizemos recorrendo às melhores técnicas que conhecíamos para evitar contra-luzes, mas sem perder as deslumbrantes vistas.

Já reabilitados da canseira da subida, retomamos a jornada rumo à estrada principal nada apressados pois as vistas eram esplendorosas. Um pouco antes daquele conjunto de moinhos de vento do Porto Santo, avistamos uns figos palmeiros como se diz na minha aldeia, da índia para outros, e teci-lhes elevados encómios, ressalvando os cuidados a ter para não surgirem situações desagradáveis, pois estão armados de uma couraça revestida de espinhos de vários tipos, uns quase invisíveis isoladamente e outros de maiores dimensões, uns e outros altamente lesivos do bem-estar cutâneo. Há menos de um mês tive o azar de cravar um no céu-da-boca que não consegui extrair! Apenas quebrar e por lá andou palpável durante mais de uma semana, causando grande desconforto à mastigação. Contudo, o seu sabor é, para mim, superior ao de qualquer outro fruto e vale alguns sacrifícios, além de ter propriedades anti-cancerígenas, dizem!

Munido de uma folha de papel a4, melhor seria uma folha de revista daquelas bem brilhantes que resistem melhor à perfuração dos espinhos e os ajudam a escorregar, colhi um que me pareceu já perto da maturação ideal, sem ajuda de canivete, instrumento que uso para colheita em série. Para lhe retirar os espinhos rolei-o estrada abaixo e enfiámo-lo num saco de plástico que o Morais, até aí, utilizava para guardar o programa da viagem, de onde a folha utilizada havia sido destacada.

Não me parecia que houvesse outros por ali maduros e acessíveis. Mas, entretanto, o Morais ganhou confiança e arriscou sair da berma e colher um outro com alguns riscos de desequilíbrio e queda sobre a palmeira o que seria desastroso, como os naturais da ilha bem sabiam, pois em tempos idos as espalharam serra fora para se defenderem do ataque dos corsários e piratas. Mas conseguiu, não antes de uma rabanada de vento lhe ter arrancado das mãos o papel que as protegia dos espinhos, e foi ver o Morais correr estrada abaixo umas largas dezenas de metros no encalce da folha que o protegeria de males maiores. Conseguiu mais um, que também rebolamos estrada abaixo para o barbear.

Prosseguindo a viagem, com o Morais a coçar frequentemente as mãos, e paragens aqui e além, como por exemplo no miradouro da Portela, a determinada altura consultamos o relógio que andava pelas dezassete e questionámo-nos se, prosseguindo, estaríamos em condições de ser pontuais para o começo da missa marcada para as dezanove e trinta na Igreja de Nossa Senhora da Piedade, na Vila Baleira, após adiamento. Ocorreu-me então um episódio de contornos semelhantes.

– Oh Morais, disse eu, há uns bons anos na então Repartição de Finanças de Águeda, ainda na década de setenta do século passado, o chefe, um daqueles homens feitos à semelhança da então Inspeção Geral de Finanças, exigente por natureza, mas que muitos consideravam mau a valer, resolveu enviar um dos funcionários com quem tinha amiudadas quezílias, para fazer uma citação na longínqua freguesia de Macieira de Alcoba. Esse funcionário era dos poucos que detinha automóvel próprio e daí a sua escolha. Contudo o rapaz, fino que nem um alho e provocador quanto baste, aceitou o repto, lançado em jeito de ordem, e, a pé, com o mandado debaixo do braço, pôs-se a caminho do destino às catorze horas, conforme indicação do chefe. Às cinco e meia em ponto, hora da saída, o Gregório entrou repartição dentro e dirigiu-se ao chefe a dar conta da diligência.

– Então foi preciso uma tarde inteira para fazer uma citação? – Disse o chefe pretendendo vincar a sua autoridade.
– E não chegou, sr. Couceiro! Sabe, fui a pé, e Macieira é longe! Quando cheguei a Castanheira do Vouga eram já três e quarenta e cinco e concluí que deveria regressar de imediato para assim poder cumprir o horário.

Por aqui me fico e não fosse o 25 de Abril que haveria de acontecer dias depois, o Gregório acabou por escapar a males maiores, provavelmente a uma transferência compulsiva para as ilhas tão do agrado desse chefe que costumava ameaçar os funcionários nesse sentido, tendo, pelo contrário, sido ele próprio objecto de um pedido de saneamento tão em voga naqueles idos.

Entretanto a estrada descia e que agradável foi percorrer aquele caminho de vistas agrestes, ainda mais rudes que as montanhas que guardam a minha aldeia em Trás-os-Montes num encadeamento sem fim à vista, mas que ali, fosse dum lado ou do outro, tínhamos o oceano em fundo.

Avistamos então um senhor que, montado num rudimentar escadote, pintava uma casa e perguntei após cortês saudação:

– Oh senhor, se continuarmos caminho até ao mar, poderemos seguir para Vila Baleira, sem termos de regressar pela mesma via?
– Podem, podem. Há caminho para lá, embora perigoso. Tenham cuidado.

Agradecemos e prosseguimos.

– Oh Morais olhe além uma vaca, bem encarrapitada no monte!
– Estou a ver! … E mais ao lado, à esquerda, está outra. Olhe, outra à direita! – Disse o Morais coçando as mãos com vigor.
– Bem atrevidas aquelas vacas! – Acrescentei.

Percorridos mais uns metros, disse o Alfredo, ainda com comichão:

– Oh Vinhais parece-me que são cabras!
– Serão? Acha que são! Para mim são vacas.

Ajustados os óculos, condescendi que poderiam ser cabras, dada a íngreme ladeira, com inclinação não inferior a uns cinquenta por cento, de difícil acesso a bichos tão pesados.

Afinal, haveríamos de concluir mais tarde que o animal mais próximo da nossa vista e da nossa controvérsia, era um bode! Um magnífico bode pertencente ao sogro do motorista que nos guiou por aqueles caminhos à descoberta do Porto Santo.

Mais à frente, cruzamo-nos com um transeunte como nós, mas em sentido inverso, e o Morais questionou-o, após saudação adequada:

– Oh senhor se continuarmos caminho até ao mar, poderemos prosseguir rumo a Vila Baleira sem necessidade de regressar pelo caminho que estamos a percorrer?
– Não se metam nisso, disse o homem. É melhor não!
– Obrigado! – Agradecemos em uníssono e prosseguimos sem atribuir grande importância à informação recolhida.

Já em Porto dos Frades, rincão de terra assim denominado pelos povoadores da região por ali terem encontrado dois frades franciscanos já mortos, surgiu um café restaurante que nos convidou a entrar, pois a caminhada havia provocado já algum desgaste.

Acabados de entrar, numa das mesas, acumulava-se um monte de papéis, um grande monte de papéis, semelhante a algumas secretárias de funcionários do fisco que em tempos conheci, e que uma jovem senhora tentava organizar.

Então, brincando com a situação, atirou o Morais ainda esfregando as mãos:

– Chegou o fisco, minha senhora, vimos conferir os seus elementos de escrita que, pelo que já constatamos, devem estar atrasadíssimos!

Num misto de surpresa e espanto, a senhora fitou-nos e não conseguiu articular palavra. Então, o Morais acrescentou:

– Já não estamos no activo! Desculpe a brincadeira.

Seguiram-se sorrisos abertos e despreocupados.

Ocorreu-me então um episódio de desenho muito mais autoritário e altivo, quando dava os primeiros passos no âmbito da inspeção tributária, em conjunto com um então perito de inspeção tributária de primeira classe, bruto que chegasse, para fazer uma espécie de entrosamento às técnicas da função, sendo que os preliminares em nada me agradaram, pois o homem entrou de rompante escritório dentro e, sem mais justificações, disse alto e bom som:

– Venho inspeccionar-vos a escrita. Arranjem uma cadeira para mim e outra p´ra este!

Confesso que fiquei um pouco envergonhado e, logo ali, decidi que na primeira oportunidade regressaria ao serviço interno, o que demorou ainda cerca de três anos, deixando de lado a liberdade que a inspeção me conferia e tanto me tentou enquanto desempenhei funções de secretaria. Mas não tinha estofo para aquelas atitudes!

Refrescados por cerveja e gelados, questionamos pela terceira e última vez, um senhor, entretanto chegado, sobre a viabilidade de avançar rumo a Vila Baleira sem que tivéssemos de regressar pelo caminho já percorrido.

– Há de facto um caminho, mas olhem que é bastante perigoso, pois é frequente soltarem-se pedras serra abaixo. Vocês têm botas de montanha? – Perguntou o homem.
– Então com botas de montanha dá para passar? – Perguntei.
– Sim, mas com muito cuidado! – Respondeu o homem.
– Então se dá para passar com botas também dará para passar com sandálias, desde que redobremos os cuidados. – Concluí atrevido.

E avançamos sob um sarcástico sorriso do interpelado que, no fundo, significava que éramos doidos, abordarmos aquele rude e destemperado caminho sem equipamento adequado e eu de sandálias bem abertas que cedo se atolaram de areia e areão.

Não se via vivalma, a não ser uns saltitões e esquivas lagartixas, só a paz nos acompanhava! A rude paisagem era francamente atrativa e simultaneamente desafiadora. À esquerda, uma praia de calhaus onde o mar batia docemente, como que acariciando os sedimentos epiclásticos e susurrando: de vez em quando também sou manso. Mas, de repente, a estrada de macadame converteu-se num estreito trilho coberto de saibro, encimado por um bem desenhado cone de areia que a montanha expelia silenciosamente, por entre calhaus castanhos e vegetação rasteira, com o mar a uma escorregadela, não sem que antes estivesse devidamente sinalizado o perigo de derrocadas.

Que bonito!

Avançamos e o trilho alarga para a travessia de um rudimentar túnel escavado nas entranhas da Serra de Fora, não muito extenso, mas que as pedras do chão indiciavam que, de quando em vez, se desprendiam.

– Oh Morais, ponha a mochila na cabeça que eu ponho a garrafa de água na minha, não vá o diabo tecê-las! – Disse eu, enquanto o Morais esfregava mais uma vez as mãos e, embora visivelmente satisfeito, não era essa a razão.

Mas não teceu, estávamos na graça de Deus e na paz dos homens! Então termina o túnel e espraia-se em frente um bem perigoso e serpenteante carreiro, onde em onde coberto de pedras soltas denunciadoras do perigo iminente que poderia surgir montanha abaixo ou então coberto de um areão escorregadio que poderia induzir um deslize rumo ao mar imenso que se nos afigurava bem profundo.

Depois de um caminho muito difícil, chegados ao porto marítimo do Porto Santo, desapareceram os aparentes perigos e a fase final, estrada fora, foi bem agradável e sem qualquer tipo de tensão, recordando passagens que ambos trilhamos com problemas comuns de índole fiscal, mas também histórias dos seminários que cada um frequentou, o Morais o Seminário Diocesano de Lamego e eu o Seminário Carmelita da Antiga Observância, em Braga, com umas boas “greco-latinadas” pelo meio e outras histórias.

A missa estava marcada para as 19h30 e, às 19h27, impantes de satisfação, entramos na Igreja de Nossa Senhora da Piedade, em Vila Baleira, sem pisar o risco e com uma vontade imensa de agradecer ao Criador por tão agradável jornada que nos proporcionou e livrou de todo o mal.

Américo Vinhais, AASCarmelita

Álbum fotográfico_Raid Porto Santo

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