Ecos da AAACarmelitas … em terras de Bragança.

A ciência advertiu-nos, com tempo, de que o dia 27 de Outubro iria ser frio para os lados de Bragança e arredores, mas nada que surpreendesse os seus naturais. Se alguma surpresa tem havido na esfera climatérica, por aqueles lados e quejandos, tem a ver sobretudo com as anormais temperaturas dos dias anteriores.

Pontualmente, com excepção das comunicações prévias de alguns, um grupo de antigos alunos carmelitas, que se viria a revelar muito coeso e comprometido com os objetivos da jornada, aportou à Praça da Sé daquela cidade, junto a uma das fontes da cultura mais importantes da cidade e da região, a livraria ROSA D’OURO, gerida e detida pelo anfitrião do grupo, o Casimiro Fernandes que, na companhia da esposa e filha, nos acolheu e guiou com muita alegria e satisfação e a quem estamos eternamente gratos pelos momentos que nos proporcionaram.

Quem não participa nestas coisas não consegue alcançar o sentimento de felicidade plasmado no rosto daquelas duas dezenas de antigos alunos que, à parte um ou outro movimento mais pesado e uns acentuados sulcos no rosto da maioria, provocados não apenas pelo envelhecimento de muitos, mas também por clara expressão de felicidade que a todos iluminava, poder-se-ia julgar que estávamos ainda no recreio das traseiras do seminário, fosse na Falperra, em Braga ou no Sameiro. Os abraços eram tão efusivos que, se acontecessem à porta de uma qualquer taberna ou estabelecimento afim, induziriam desde logo uns bons penalties, que estavam guardados para mais tarde! Alegria a rodos naquela Praça da Sé Velha, animada por longínquos acontecimentos e conhecimentos aqui e além toldados pela passagem dos anos mas que rapidamente refulgiam.

Reunidos de acordo com os registos, caminhamos rumo à cidadela fortificada numa visita que não poderia ser demorada, à Igreja de Santa Maria, Santa Maria do Sardão para muitos, não porque tenha algum lagarto pintado no seu manto, mas embalados por uma velha lenda que envolve mouros e sardões, que não lagartos, mas provavelmente sobreiros, azinheiras ou carrascos, distinção que não é clara para a maioria.

Trata-se de um templo românico mesclado por vários estilos arquitetónicos, o que denota ter sido objeto de várias melhorias, onde se admira um magnífico pórtico barroco e, no interior, umas colunas mouras de ladrilho e um teto revestido com pinturas cenográficas evocativas da assunção da Virgem, mas que não puderam ser devidamente admiradas pela fraca iluminação existente àquela hora, albergando também alguns elementos de decoração renascentistas.

Passamos a seguir para a Domus Municipalis, visto com um símbolo do municipalismo, uma magnífica construção românica em forma pentagonal irregular, dotada de uma cisterna interior alimentada pela água da chuva e que visava o abastecimento da cidade em tempos tumultuosos, que alguns confundem com uma prisão, certamente induzidos pelas grossas grades que cobrem as três aberturas rasgadas ao nível do piso superior. Os bancos de granito a toda a volta do interior do edifício serviriam para que os participantes em reuniões magnas ali se acomodassem, constituindo, segundo alguns, a “Assembleia dos Vizinhos”. Para melhor entender quer o estilo quer a função, nada melhor que uma visita ao local.

O anfitrião encaminhou-nos de seguida para a visita fulcral do programa, a Basílica Menor do Santo Cristo do Outeiro, que depende diretamente da Basílica de S. Pedro de Roma, e daí o título de Menor, sendo a única das existentes no país em zona periférica, cuja decisão de construção nasceu, segundo se diz, pelo milagre de sudação de sangue pelo Santo Cristo existente então numa pequena capela a poente da atual basílica, a Capela da Santa Cruz, milagre que terá sido testemunhado por um padre carmelita e por um Juiz de Fora. Trata-se de um monumento emblemático do reinado de D. Manuel, onde emergem vários estilos arquitetónicos mas com o barroco a sobressair em grande evidência. É assombroso aquele altar-mor em talha dourada de grande qualidade e excelente conservação, o segundo maior do país de acordo com um dos autarcas locais que nos guiaram. Impressionantes são também as pinturas existentes na sacristia, toda ela revestida com painéis de natureza seiscentista da autoria de um pintor de Valladolid, Damião Bustamonte que, ao que parece, apenas pintava da parte da tarde, em cujo teto se podem admirar ilustrações de vários episódios da vida de Cristo, sendo as paredes todas elas revestidas com figuras santificadas a decorá-las, das quais destacamos os doze apóstolos e Nossa Senhora do Carmo, que serviu de mote para a nossa expedição. A par da santidade que ali se respira, em baixo, quase junto ao solo da sacristia junta à sua porta de acesso, lá está um auto-retrato do pintor, com um vaso de vinho na mão em jeito de brinde, acompanhado de uma inscrição em latim: Vinum letificat cor hominis (O vinho alegra o coração dos homens).

Os flaches não paravam por todo o templo mas fazia-se tarde e houve convocatória para uma genérica à entrada do templo e partimos, a custo, mas partimos com a alma cheia e o corpo a pedir outro alimento que haveríamos de encontrar numa aldeia do concelho, no Restaurante Lombada, após um percurso bem pitoresco e flamejado aqui e além por matizes amarelas, castanhas, roxas e um misto de cor que as plantas caducas exibiam ainda com galhardia perante as temperaturas invernosas que se faziam sentir. Um percurso bem pitoresco, onde os castanheiros ainda teimam em não ostentar as cores carmelitas e o seu fruto, todo ele carmelita, castanho por fora e branco por dentro, ainda bem recolhido.

Causou admiração o magnífico restaurante que nos haveria de recompor numa aldeia tão pequena rodeada quase por nada, a aldeia de Babe, a roçar o Parque Natural de Montesinho, que nos brindou com variadas entradas e umas excelentes carnes de vitela e de cordeiro. Está justificada a localização! Porque não alinho na equipa do Bustamonte, dispenso-me de comentar a qualidade do néctar que não deveria ser mau pela disposição dos comensais.

Conversa animada, com a surdina inicial por respeito aos restantes clientes já convertida em alegre cavaqueira em crescendo, houve tempo para umas palavras de circunstância, mas bem sentidas de agradecimento ao Casimiro e à sua esposa e filha, precedidas de outras por ele ditas agradecendo o excelente resultado da convocatória que havia emitido, destacando-se ainda uma nota especial para as intenções do Fausto que se propôs, de quando em vez, convocar todos os aaacarmelitas da região para um encontro gastronómico e para matar saudades.

Agradecemos também à Câmara Municipal de Bragança as lembranças com que nos brindou após o trabalho de divulgação que o Casimiro fez junto da mesma, o que denota a excelente posição social de mais um aaacarmelita que se consegue fazer notar na sua região pelas suas boas práticas muito bem vistas na cidade.

Bem saciados, as distâncias e outros afazeres começaram a assinalar aos presentes que era hora de começar a debandar, pois a noite não tardaria. Houve ainda a sugestão de passar pela barragem do Azibo, mas apenas os elementos da direção compareceram e não se fizeram velhos por lá, não obstante a beleza, que um vento cieiro vindo de Espanha não deixava contemplar devidamente.

Américo Lino Vinhais
Presidente da Direção AAACarmelitas

Álbum fotográfico

One thought on “Ecos da AAACarmelitas … em terras de Bragança.

  1. Segunda, 12 de Novembro de 2018 at 15:26

    Meu Caro,

    Um bem haja por tão interessante descrição! Parecia que eu estava no terreno, comungando do envolvimento de vultos culturais da nossa história.
    Uma boa dose de comunicação erudita!
    Parabéns.

    Ramiro Gomes

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