Ecos da Guiné: Afinal…

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Afinal não foram só as recordações de antanho, não propriamente saudades, mas aquelas sensações que nos são tão caras: “estivemos lá”! É que houve um pedaço de vida, para mais na juventude, sem se saber porquê, sem se vislumbrar para quê, que ali ficou enterrada… e, graças a Deus, que foi só um pedaço,  para muitos a vida ficou lá por inteiro. Não foi só isso!

Aliás, se esta foi uma motivação forte, humana, material, visual, memorial (para vários de nós), a outra razão  forte, segundo o espírito da UASP que, em boa hora, lançou mãos a uma ideia que congregou tão boas vontades, e foram tantas (2 turnos), foi a SOLIDARIEDADE.

Digam-nos as malas que conseguimos despachar e as que ficaram retidas no aeroporto por demasia de peso, que o digam aqueles à porta de quem se bateu a esmolar, a arrecadar, a encaixotar…. medicamentos, materiais de higiene, bolas e brinquedos, rebuçados, livros de liturgia e de formação, vestuário, canetas, papel, material escolar… e que mais? Que o diga o cuidado de manuseamento e carrego e locais de depósito, que nada desapareça, (amigo Ponte, foste exímio!) Com quanto carinho! E, quando se abria, era ver os olhos esgazeados das crianças que nos viam entregar e até abrir as malas carregadas.

Fomos à CUMURA. Leprosaria de origem, modesta a imaginar, albergava os espúrios da sociedade, atingidos de lepra e maldição, que regras oficiais, sem cuidar de cura, reabilitação, limpeza ou cuidado, escorraçavam em nome duma ambiência social, sem dó nem piedade. Para morrer aos poucos, numa degradação da carne carcomida pelo verme. Caridosos Frades Menores, sem recursos, nem sanitários nem materiais, encetaram uma tarefa árdua e sem fim à vista, mas dedicados e carinhosos, qual Raoul Follereau, mendigando (eram mendicantes) aqui e ali o auxílio para causa tão nobre e tão benéfica. Lograram insanos progressos, acarinharam muitos desesperos, devolveram à vida muitos infelizes condenados sem esperança. E a obra ali está. Marco indelével de caridade cristã e muita solidariedade humana.

Hoje oficialmente reconhecida, é albergue para muitas necessidades. Interessante a quantidade de contentores que são depósito e arrumação por tudo quanto é canto. Espelho de solidariedade e organização eficaz. Leprosos? Um ou dois, informaram. Mas mães grávidas em dificuldade, cegos ou em via de…, doenças de todo o tipo, que a sociedade rejeita por incómodo ou miséria, há um acolhimento profundo, técnico e sistemático para muitos que, sem isso, estavam condenados a morrer desamparados.  E os laboratórios? E os cuidados  de obstetrícia? E tudo num ambiente de muita limpeza e dignidade, cientificamente preparados.

Aí encontrámos (da 2ª vez) um jovem médico português que, em estágio de solidariedade, exerce o seu múnus em favor de desprotegidos. E aquelas 80 operações às cataratas que uma equipa portuguesa realizou numa incursão solidária? Ficou registado. São marcas que a história regista, sem fazer alarde nos media… mas aí fica a atestar que “nem só de pão vive o homem” mas de tudo o que a boa vontade pode exercer. Visitámos, entregámos, louvámos, bebemos lições de humanidade que, mesmo escondidas, são luz num universo tão cheio de trevas e abandono. No mesmo sentido e com as mesmas finalidades enumeramos: Hospital psiquiátrico (que mimo de eficiência e tecnicidade!). Bambaram (que dignidade na pobreza!). Umas irmãs sul-americanas a cuidar de crianças órfãs e abandonadas por sobrelotação familiar ou alguma deficiência, ou gêmeos ou outras influências de tipo espíritos maus…

Só um apontamento a terminar.

Ainda há dias, 19 de Setembro, a Lusa, com fotos impressionantes  e sintomáticas, anunciava a canção, inédita, nunca divulgada, de Binham Quimor durante um concerto em Bór, Guiné Bissau, em Maio de 2016. Binham, 38 anos, tem uma canção sobre o pai, a qual nunca gravou na sua discografia: aquela em que conta como ele o quis matar quando ainda era bebé. Binham tinha um ano quando foi abandonado para ser levado pela maré porque, reza a tradição, algumas crianças são espíritos que têm de ser devolvidos à natureza… (Parabéns, Luís Fonseca/Lusa, por artigo tão belo!).

E é isto Bambaram, que visitámos com emoção e carinho. Recolhe o “lixo” que a sociedade deita fora e cuida… cuida…, acarinha, protege, devolve à vida que lhe queriam tirar, sinal de muita doação, sem nada esperar receber em troca, senão a “graça” de Deus.

Oxalá a nossa pequena “solidariedade” tenha servido para minorar por uns dias tanta indigência.

AO (Alferes capelão)

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