Ecos da Guiné: É Domingo (em Bafatá) …

DSC_1682 (800x535)Pés enterrados na poeira infecta, circulando para evitar os montes de lixo e excrementos dos animas a vaguear em liberdade pelas ruas, atravessámos uma rua (pouco) alcatroada e penetrámos no meandro das tabancas assoladas de lixo e pó, aqui e ali bancas improvisadas, primitivas, com laranjas descascadas, mancarra, peixe, sandes, e outros géneros, à disposição e à espera de quem apareça para comprar. Dois burricos, a cismar, atrelavam uma carrocita com alguns trastes. O Bispo, com a saquita das alfaias debaixo do braço, distribuía sorrisos e saudações a alguns conhecidos que connosco cruzavam… Igreja cheia, a igreja da missão (Nossa Senhora de Fátima) acolheu um bom grupo de cristãos, de vestes domingueiras, bem apetrechados, com quem celebrámos festivamente o Dia do Senhor. Tentávamos trautear umas músicas em crioulo, magnificamente entoadas e ritmadas à africana, e acompanhámos o já gasto e quase esquecido espiritual negro: É o meu Corpo… tomai e comei… E no fim saiu com grande pompa o A treze de Maio, que o “Coral de Fátima”, nome com que o Bispo nos baptizou, entoou com entusiasmo e saudade…

Recebidos com muita amizade e carinho (portugueses e de Fátima!) o ambiente que era criado à nossa volta deixava-nos encantados. Alguma hipotética animosidade que poderíamos ainda supostamente imaginar de tempos passados, nada! Encantados, sem dúvida!

Um pequeno almoço substancial  preparou-nos para uma manhã solidária com as religiões sedeadas em Bafatá. Iniciativa e organização do Bispo e da Paróquia, no  largo fronteiro à Catedral, para a qual fomos convidados.

Descemos a antiga estrada que conduzia ao coração de Bafatá, CCS, messe de oficiais, refeitório dos soldados (que mais parecia um curral), a grande casa do gerente da Casa Gouveia.  Olha ali, a varanda, olha a janela do meu quarto duramente 6 meses! Ó recordações! Ó emoções! E, ao pensamento, vieram noites de mosquitos, afastado com o produto que ardia toda a noite, exalando um cheiro característico, a ventoinha inseparável toda a noite a desandar mesmo por cima da cama, o ar de constipação com se acordava de manhã… a leitura gulosa de tantos aerogramas que iam chegando e os que se iam escrevendo… ena tantas emoções!

 Olhos arregalados a ver tudo ao abandono, estradas esventradas, lixo, muito lixo, abandono, nem o cinema, a piscina, o ringue de jogo, a casa do Libanês, a própria casa de Amílcar Cabral (hoje museu), a estátua do jardim, as arcadas, tudo a cair aos bocados, um resto de mercado livre no meio da poeira, e as margens do Geba, onde se passavam boas tardes de lazer, de viola na mão, e se consumia o tempo de quem nada tinha que fazer. Depois do 25 de Abril, o desnorte da política nacional provocou uma ânsia, uma espera de negociações, passaram as operações militares, uma insegurança, uma bandalheira que só se afogava numas cervejolas e no deixar correr o tempo, até que viesse a ordem de cima, que só chegou em meados de Agosto: “Todos fora da Guiné até 10 de Setembro!”

A hora marcada aproximou-nos da Catedral em cujo átrio fronteiriço, debaixo das árvores, umas cadeiras, uma cátedra, numa aparelhagem sonora o Pároco apresentava a sessão: encontro multi-religioso em que intervieram os católicos, os muçulmanos, os evangélicos e os animistas, além das autoridades políticas num misto de entendimento, de pregação, de apelo à unidade, com discursos inflamados e bem feitos. Unidade sem dúvida! Também a nossa comitiva foi interpelada para dar o seu contributo.

De tarde, uma visita a Capé. Quinta enfronhada na mata que, em mãos de particular, sempre foi considerado um oásis, de plantação de banana e cana de açúcar e sua exploração (já assim era há 40 anos) e outras produções, e também oásis de paz (sabe Deus porquê!) em terreno cem por cento operacional, como era considerada toda a Guiné. Serviu, e ainda apresenta sinais visíveis, agora em crescente abandono, (é a crise) como “resort” internacional para receber caçadores ricos e apaixonados de caça. Há fotografias de grupos portugueses a exibir fartas caçadas, que rumavam à Guiné para lazer, safaris empolgantes e outras actividades… Visita guiada às diversas valências duma quinta que, de próspera e luxuosa em tempos favoráveis, vai esquecendo o fausto e a pompa, porque tem pouca procura. E para lá chegar? E regressar? Nem as piores picadas do tempo da guerra! Desengonçada e quase a virar-se como em precipício, a carrinha saltava e fazia saltar, tudo rangia, a carrinha e nós, ai vértebras, ai coxas, ai nádegas, ai joelhos! Que martírio! Valeu  a pena, mesmo assim,  para ajuizar como a guerra tinha os seus oásis, apesar de tudo, sabe-se lá porquê? Passámos ainda pela Apicultura.

Foi Domingo em Bafatá, muito diferente de outros que ali se passaram em tempos idos.

As visitas à Missão, muito frequentes, aliviavam o stress, a conversa com os missionários substituíam o fardo da carga dum ambiente militar, estático e funcional, quantas vezes, porco e indigno. E uma bebida fresca ou uns mangos fresquinhos e saborosos ajudavam a serenar o espírito, sempre alterado pelo ambiente de guerra que acabrunhava.

Foi um bom Domingo em Bafatá!

AO (Alferes capelão)

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