Ecos da Guiné: JAKITÉ… SOU EU! …

DSC09067 (800x600)Manhã em Bissau. Igreja de Santa Luzia, bem conhecida de alguns de nós. Sobretudo o nosso Amadeu Mourato e Júlio da Cáritas, que se deliciaram em reconhecer e apontar locais que 2 anos de guerra lhe fizeram conhecer. Que histórias! Missa da comunidade.

Era mesmo a porta de acesso, “a porta de armas” do QG, onde sedeava o staff militar da organização da guerra na Guiné. Era uma movimentação contínua, com a barreira a levantar ininterrupta, pois os carros militares não despegavam. A capela era mesmo ali, à entrada. Olhos arregalados, a ver ao cimo da rampa o depósito de água, ícone visual da entrada do Quartel General, (hoje o bairro tem o mesmo nome), com as chefias e comandos logo à direita, ao lado a messe de oficiais e a majestosa piscina, a messe dos sargentos e logo abaixo, o Vaticano, a tabanca dos capelães, ali junto ao arame farpado. Pois foi mesmo ali que, em Fevereiro talvez (1974) uma bomba rebentou juntinho à torre do QG, com o  seu majestoso relógio (hoje tudo em ruínas), mesmo nas costas do Comando Geral. As marcas lá estavam bem visíveis.. Quando um dia, perdão, uma noite, junto à piscina, a ver um filme no grande ecrã, alguém, por inadvertência, ao acender o cigarro, incendiou uma carteira de fósforos… era ver aquela malta toda a enfiar-se na piscina, a pensar nalguma bomba! Não!… foi uma simples carteira de fósforos… mas para cagaço e molhadela chegou. A tensão era muita!

Entrámos na capela; os bancos os mesmos, o espaço igual.  Preparámo-nos para celebrar, que a hora chegava. Junto ao altar três padres da comitiva. Chega o pároco, algo surpreso, porque afinal a missa estava anunciada para outra igreja. Entrou e apresentou-se: Bom dia. E estendendo a mão: Padre Jakité. Alguém respondeu: “Sim. Padre já aqui tá: eu e mais estes dois!”. Risada encoberta e… não é que o nome do sacerdote era mesmo: Jakité? Um dos superiores do Seminário Maior.

E a capela encheu-se. Misturados, os brancos da comitiva e os autóctones da paróquia. Ao 4º banco da direita, chega, de bengala na mão, uma velhinha de tez mestiça. Cantou-se animadamente, celebrou-se com dignidade, rezou-se fervorosamente, trocámos o gesto da paz em grande abertura e amizade, sorrisos nos rostos e ânimo cristão na comunidade.

Ao fim, cada um de nós deu o seu testemunho manifestando a alegria de estar com aquela comunidade e da razão da nossa presença. Calhou-me falar por último. Disse: “quando vi entrar aquela senhora ali (apontei para o 4º banco) a sentar-se naquele banco, lembrei-me que há 42 anos (nos 15 dias antes de ir para o mato) quando aqui vinha celebrar, havia uma senhora com os seus 4 ou 5 filhos, em escadinha por idades, vinha sempre ocupar aquele banco”. A senhora levanta-se e grita: “SOU EU”! A senhora Ana! – disseram todos. Uma devota de todos os dias. Abraçámos, contámos, lembrámos… coisas de antanho. Confraternizámos e despedimo-nos duma comunidade que, no dia seguinte, quando passámos em visita ao QG, todo o átrio estava ocupado por quatro grandes grupos de adultos em formação. O catequista anunciava a mensagem que era ouvida atentamente por todos. Foi o primeiro dia em Bissau.

AO (Alferes capelão)

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