Ecos da Guiné: NO PINTCHA! *

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42 anos! Foi anteontem!

Na frescura dos 30. O José Cid tinha ganho o Festival da Canção na véspera. Nessa noite  fomos à Cova da Moura despedir-nos do nosso chefe (brigadeiro!), O Bispo de Madarsuma. Lembras-te, David, do que ele nos disse? Sabem que não fazem a comissão inteira? Como? … Não posso dizer mais nada!!! Boa viagem…

O aviãozito (um DC 30?), a hélice, rumou ao Sal. Na madrugada escura e gélida, as faúlhas do motor em chispas ameaçadoras… ainda assustaram… Fez escala no Sal. Subimos… Mares (e ares) dantes (e agora) navegados... Terra à vista.

Abriu-se a porta. Descer a escada lembrou o Ananias, Azarias e o Misael a entrar na fornalha do castigo! Sente-se o bafo dum forno aberto. Bissalanca, na Guiné. Passámos por uma porta a apor uma assinatura num papel. (Na gíria – assinatura da ”certidão de óbito”). QG era o destino. Coração apertado numa farda nova com galões de oficial.

Vão todos para a Guiné! – tinha dito o chefe (o de Madarsuma, o Rodrigues ali de Ourém), aí pelo dia 10 de janeiro de 1974 na Academia Militar. (Lembras-te, Sousa e Alves, lembras-te, Joaquim Ribeiro?). Ficou a ameaça, que só se concretizou em meia dúzia (eram 16 os chamados: 2 não compareceram – refractários – 3 foram despromovidos): chegaram Cruz, Artur, David, Rui Alves, Fagundes e mais tarde o José Henriques que não foi promovido logo por causa duma boca foleira (só!). Acompanhou-nos o nosso chefe, de carreira, o Pires Soares, de Beja. O nosso destino era o QG. Fomos até ao fundo, ao Vaticano, como chamavam à tabanca dos capelães. A torre do QG ainda mostrava vestígios duma bomba ali rebentada em Fevereiro…

A Atlantics (do grupo Pestana) depositou-nos em Bissalanca, hoje Aeroporto Osvaldo Vieira. Formalidades definidas, carga em pirâmide, entassados como sardinha em lata, (onde mal cabiam 14 acotovelaram-se 21… dava pelo nome de Mercedes! Olha  o luxo!) entrámos no “trilho”, já de alguns conhecido, rumo ao “nosso” QG – a Cúria diocesana de Bissau. Pouca demora, que nos espera uma picada muito difícil até Bafatá. Outrora só de Nord Atlas!

Assim foi: salto aqui, pulo acolá, buracos a exigir manobras de volante, velocidade louca, asfalto irregular e desgastado, pó… tanto pó… joelhos fincados na lata dos bancos da frente, pouca espuma nos assentos, vergões nas coxas, vértebras a ranger, dores nas costas, mais salto, mais lomba… e nomes iam surgindo da boca dos ex-combatentes da comitiva: Mansoa, Porto-goll, Bissá, tabancas sem nome ao longo da estrada, Bambadinca, Xime e finalmente Bafatá. Irreconhecível o trilho pelo meio das tabancas, lá no cimo, sujas, porcos, galinhas, vacas, cabras, mau cheiro, abutres, lixo, muito lixo, ora amontoado, ora espalhado, parámos num pátio – a Cúria de Bafatá. Só no dia seguinte reconheci a Casa das irmãs franciscanas (ó irmã Alzira, de Leiria, lembra-se?). Reconheci, mas por outra entrada, agora abandonada… Aí era lavada a roupa dos capelães de então.

D. Pedro Zilli, o Bispo, acolhedor, num sorriso muito brasileiro, manifestou o seu reconhecimento pela visita e disponibilizou um acolhimento muito simpático e favorável. As horas iam passando e uma boa refeição completou o dia.

Começou a “nossa guerra”. Uma guerra diferente da que há 50, 45 e 40 anos a nove dos da comitiva fez muita “mossa” na vida. Recordar é viver. Cansados mas vivos.

AO – (Alferes capelão)

*Significa: estamos nesta, vamos para a frente… Sigamos.

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