Ecos da Guiné: Todos picados! …

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Era Domingo. Fomos à Catedral, à grande celebração da manhã.  Descontraídos, numa manhã soalheira e convidativa. O calor, sem assustar, chamava. As ruas pareceram-nos solenes e calmas, sem azáfama de trabalho, onde antes, em tempo de guerra, a movimentação ruidosa e oficial de carros de combate, jeeps , unimogs e berliets, com a cercania da Base Militar da Marinha, ou a azáfama dum cais, mais abaixo, sempre em movimentação de chegadas e partidas, carregamentos e descargas, emprestava um ar carregado e sinistro. Hoje tudo é calmo, muito mais degradado e sujo do que a memória nos reporta desses tempos. Casas senhoriais, em franca degradação,  a lembrar ainda a sua pompa colonialista, a rodear uma catedral imponente e majestosa, cuidada e bem airosa.  Era Domingo.

Magotes de fiéis afluíam de todo o lado, subiam pachorrentos a escadaria, o adro e a entrada… O Pároco, frei Vítor, que simpatia, subia, descia, cumprimentava afavelmente, acolhia quem vinha para celebrar, e distribuía tarefas. Também entrámos, um tanto anónimos, mas, brancos, a ilustrar a policromia duma fé que se ia celebrar em comunhão. Adrede preparados, coube ao nossa ancião, Mons. Guerra, a presidência. Dignidade, numa catedral ampla e acolhedora, em celebração viva e colorida, é apanágio das gentes africanas o garridismo, o primor das vestimentas e o polícromo das fatiotas tradicionais. Um coro jovem, em melopeias ritmadas e dengosas, mas muito dignas, à mistura com cânticos em português, penetravam na alma e contaminavam uma assembleia crente e motivada, a encher melodiosamente o espaço sagrado.

A juventude e a beleza da salmista contrastava com a velhice, pelo uso e desgaste, do livro que utilizou. Salmos responsoriais de Manuel Luís. E o organista utilizou a versão com acompanhamento de órgão, de Cartageno. Anunciei ao Coral que, da próxima, viriam livros novos a substituir os degradados. Fui eu que os digitalizei. Assim foi. (2ª vez). Era 5ª feira santa. Até tive que assumir a presidência, que o Bispo não pôde vir. O P. Vítor insistiu… e leu a homilia que o Bispo tinha preparado para o efeito. Entreguei os livros e louvei o coral que magnificamente executou para Ordinário a Missa Soroldoni, de grande memória, por mim introduzida no santuário de Fátima: Missa de Angelis com arranjos polifónicos na repetição. Cada um de nós deu o seu testemunho. Alguém disse: fomos todos picados! (sobretudo os que por cá passaram). Daí a alegria e a recordação tão bela que nos ficou desta gente que nada tem contra nós. Que nos acolhe tão bem, sem ressentimentos.

De regresso a casa, deambulámos, sobretudo os três mais ligados àquela cidade, em tempo de guerra: Amura, Hotel Central, totalmente em ruínas, rua do QG, a Igreja de Santa Luzia, (onde o Amadeu, de saudosa memória, recordou os seus tempos de enfermeiro e catequista), grandes grupos de cristãos adultos em catequese, as ruas principais do QG, o ressort turístico que ocupa o espaço da messe de oficiais e a piscina, bem restaurada, e, por detrás, ruínas da messe de sargentos, (olha, ali vivi dois anos, dizia o Júlio) mais adiante o que resta do QG, apenas uma caserna a cair aos bocados, o muro, que é o mesmo, com a guarda à entrada, militares do Burkina Fasso, que não permitem fotografias nem visitas. Visitas curtas de saudade, a recordar pedaços de vida que ali foram sendo gastas, sem interesse nenhum. E lá está o grande depósito de água, que era, e é, o ícone daquela zona, ainda hoje chamada Quartel General. Ali, semanas a fio, ardeu,  em monte, material militar, fardas e calçado… enquanto as tropas eram evacuadas para a Metrópole. Além dos seus pertences, só a G3 que era entregue no momento e metida no porão. Dez Boeings por dia, durante 15 dias, além dos barcos, Niassa, Vera Cruz e Príncipe Perfeito que, de cada barcada, traziam três Batalhões: 3000 homens. 7 a 13 de Setembro de 1974. Foram 20 mil em 15 dias. Mas foi vida.

E a tarde deu para umas visitas mais pessoais a locais minimamente reconhecíveis. Muito movimento, muita gente… muita vida, mercado abundante e ruidoso. Pouco progresso. É Bissau.

AO (Alferes capelão)

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