IVº Fórum: Conclusões

Do Jubileu ao quotidiano, a Misericórdia como Paradigma – Conclusões

Fomentar a corresponsabilidade eclesial e a participação em projetos que procurem a dignidade humana e os valores evangélicos, é uma das obrigações da UASP (União das Associações dos Antigos Alunos dos Seminários Portugueses) que tão bem soube levar a cabo no passado dia 1, no Hotel São Nuno, um ótimo local para reflexão, que é também a atual casa-mãe dos Carmelitas da Antiga Observância em Portugal, assim designada em homenagem àquele que foi o Condestável de Portugal, não enquanto político ou guerreiro, mas enquanto carmelita, tendo sido, sem dúvida o carmelita português mais ilustre, não só pela sua influência no Convento de Moura, onde nasceu o Carmelo Português, mas também pela construção, a expensas suas, do Convento do Carmo em Lisboa, que doou aos carmelitas apenas vários anos após a sua construção, depois de se ter certificado previamente que ali viviam frades diligentes e devotos, ingressando ele próprio no Convento como simples irmão onde viveu os últimos oito anos da sua vida orando e pedindo esmola para os pobres.

Foi um excelente dia de reflexão, em que participaram quatro oradores, sem dúvida unidos em Cristo, mas não completamente coincidentes na hermenêutica bíblica, sendo as conclusões finais não necessariamente sintonizadas com o juízo de cada participante.

O Pe Rui Valério, sacerdote monfortino, abordou o dinamismo da Misericórdia na vertente da profundidade de Deus como Misericórdia, na perspetiva de que estamos num novo ciclo, há uma mudança de época. De uma época crítica, em que se partia da doutrina para a prática, passámos para uma nova fase, uma época orgânica, em que a linguagem é simbólica, já que se deve partir da prática vivida para a doutrina; o homem está hoje subjugado à técnica, à mais completa racionalidade (o que eu lucro com isso?), não há espaço para a espiritualidade, pois buscam-se resultados máximos com custos mínimos, busca-se a eficácia medida em resultados, sendo o ser humano apenas uma peça da engrenagem, donde resulta que, de certo modo, a mentalidade da técnica é pior do que o nazismo; A misericórdia não é um ato, nem é um gesto, é um processo, é uma ação que se desenvolve dinamicamente, como na relação mãe-filho.

Também o dinamismo da Misericórdia, agora na vertente do diálogo ecuménico, foi abordado pelo Dr. Timóteo Cavaco, presidente da direção da Sociedade Bíblica que veio dizer-nos que o conceito enraizado da Misericórdia, é um sentimento, uma ação praticada por alguém, mas raramente é uma prática continuada ou uma atitude permanente, partindo de um pressuposto de desigualdade, exatamente o oposto daquilo que deve ser; A Misericórdia de Deus não espera retorno e assim deve ser a misericórdia dos homens; sendo o orador cristão evangélico apelou ao sentido de união com os católicos, partindo da prática mútua da Misericórdia, já que hoje os protestantes estão sintonizados com a mensagem do papa Francisco, sendo a Misericórdia de Deus um forte sinal de união; recordou que em Portugal não sendo o diálogo entre uns e outros muito forte, existe há cinquenta anos um trabalho conjunto em várias áreas.

A terceira intervenção do dia esteve a cargo do Pe Anselmo Borges que não foi consensual nas suas teorias, embora assentes em fortes convicções do orador que apelidou como a cultura da Misericórdia no diálogo entre crentes, não crentes e indiferentes. Começou por afirmar que se deve usar o coração ao olhar para a desgraça de alguém e que se tem divulgado uma ideia desgraçada de Deus, porque fazemos dele um monstro, tendo homens e mulheres sido tolhidos durante séculos por esse Deus terrífico; Cristo nunca falou em pecado original, conceito hoje inconcebível, sendo uma ideia que trouxe mal-estar ao cristianismo histórico em relação à sexualidade, que provém fundamentalmente dos gnósticos e de Santo Agostinho, que tendo sido um génio trouxe também alguns problemas; no século XVIII, as pessoas começaram a abandonar a igreja pelo sexo a que estavam reduzidos os seus pecados; Cristo veio dizer-nos que gosta de nós e o papa Francisco ao retomar o evangelho contenta as pessoas: Deus é amor incondicional. É pai e mãe, Deus é razão; a Igreja inicialmente não aceitava a liberdade nem os direitos humanos que, não obstante serem valores bíblicos foram os iluministas que os impuseram à Igreja que, através do Concílio Ecuménico Vaticano II, começou uma reconciliação com a história; devemos avançar com a bondade e a inteligência.

Finalmente a Drª Maria Rosário Carneiro falou sobre a cultura da Misericórdia na construção de uma sociedade mais justa e fraterna, o que apenas se conseguirá após um diagnóstico refletido, que identifique claramente o lado iluminado e o lado escuro da realidade, olhando-a primeiro com a razão e só depois com o coração; hoje há um esquecimento do bem comum, que é olhado com indiferença, esquecimento, somos descartáveis o que marca a sociedade atual por uma forte desumanização, que cada vez alarga mais o fosso entre os que têm mais e os que têm menos; morrem por ano oito milhões de pessoas, apenas porque são pobres, sendo o retrato da sociedade atual insustentável; identificados os problemas deve procurar-se: o bem comum, a justiça e a solidariedade. Bem comum concreto, material e objetivável, tendo sempre presente a dignidade do homem; justiça apenas é justiça se visa a incorporação dos outros, uma justiça que garanta a cada um aquilo que mais precisa; solidariedade implica uma maior disponibilidade pessoal para encontrar novas soluções. Solidariedade é compromisso.

Foi um dia pleno em que o conhecimento alimentou de fato o cérebro dos participantes e os manteve atentos perante a grandeza dos temas tratados.

Américo Lino Vinhais

 

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