Oitocentos Anos de Presença Franciscana – Memória e Vivência

FREI  GUALTER  E  AS  FESTAS  GUALTERIANAS
UMA  PEQUENA  NOTA

Este modesto texto que me proponho apresentar não resulta de uma profunda investigação histórica, caracteriza-se, sim, pela simplicidade. Porque pretendo, essencialmente, evocar um homem simples, um irmão franciscano, um frade menor que o povo acolheu com abraços de proximidade e de fraternidade e, depois da sua morte, “canonizou” e elegeu como padroeiro da cidade de Guimarães. Deixo de parte algumas polémicas de carácter histórico, quanto a datas, locais, acontecimentos…..

Após algumas leituras escolhi aquilo que, na minha humilde opinião, considero com maior interesse para estas Jornadas. Assim sendo, estruturei, deste modo, a minha comunicação:

  1. Identidade e missão franciscana;
  2. Frei Gualter,  o frade do povo, pioneiro da missão franciscana em Portugal;
  3. Guimarães, das Feiras Francas às actuais Festas Gualterianas e  Festas da Cidade.

(Vou ter em conta uma recomendação de Santo Agostinho que sendo um enorme filósofo, santo e Doutor da Igreja, dizia que a alegria é estar entre os ouvintes, recomendando a quem fala muita contenção! Assim, vai acontecer….)

  1. IDENTIDADE E MISSÃO FRANCISCANA

Francisco de Assis sentiu-se chamado a viver na pobreza e a dedicar-se à pregação. Foi assim que, em 1217, reuniu os seus frades em Capítulo e tendo-lhe chegado numerosos pedidos de missionários, enviou os seus frades pelo mundo e suas periferias… Na escolha dos enviados teve presente as características dos países de acolhimento. Direi que é a chegada de uma nova era. Deus na Sua infinita Bondade e Generosidade não desiste de propor a todos os povos a oportunidade de receberem a Boa Nova, ouvindo os seus mensageiros.

….E como diz o Papa emérito Bento XVI, “São Francisco leu os sinais do tempo, intuindo os desafios que a Igreja devia enfrentar, mostrando a Verdade do Evangelho” E, assim, os seus frades “eram mestres com a palavra e testemunhas com o exemplo…” Vivendo com radicalidade. Viver primeiro aquilo que se anuncia. Dizia-lhes Francisco: “Vamos por todo o mundo exortar mais com o exemplo do que com as palavras”.

….E o Papa Honório III, com a Bula “CUM  DILECTI”, de 1218, apoiava os frades menores que iam abrindo as suas missões nos diversos países da Europa e também em Marrocos. “Viajavam de um lugar para o outro com fervor missionário. Francisco sentia-se chamado a viver na pobreza e a dedicar-se à pregação”

      2. FREI GUALTER,  PIONEIRO  DA  MISSÃO  FRANCISCANA  EM  PORTUGAL
FREI  GUATER, O  FRADE  DO  POVO  NA  VILA  DE  GUIMARÃES

….É neste sentido de identidade e missão da OFM, manifestada desde o início a vocação missionária do seu Fundador, que Frei Gualter chega à vila medieval de Guimarães. “Filhos, eu vos tenho destinados para pregardes no Reino de Portugal. Mas sejam vossas palavras acompanhadas de obras, porque, neste caso, o exemplo monta mais que a doutrina”. E Francisco advertiu Frei Gualter que fundasse, em Guimarães, o convento que tinha prometido.

Então, Frei Gualter e Frei Zacarias, vindos de Itália, separam-se dos seus companheiros de viagem, resistem ao calor abrasador de Agosto das terras de Castela e da Estremadura e chegam a Portugal.

Para que os seus frades fossem bem recebidos, Francisco, como bom Pai, recomendou-os à piedosa Rainha D. Urraca, esposa de D. Afonso II, com quem se encontrara, segundo alguns historiadores, em 1214. ( Porque, devido ao modo como os frades menores se vestiam e caminhavam, em alguns lugares, eram mal recebidos. Tinham-nos, mesmo, como loucos!…). Assim, Frei Gualter e Frei Zacarias apresentaram-se ao Rei e à Rainha e com eles ficaram alguns dias, tendo-lhes os Monarcas proposto que ficassem em Coimbra. Porém, Frei Gualter não aceitou, porque a sua missão era chegar à vila de Guimarães e onde realmente chegou, dizem uns, no Outono de 1216(?), certamente com alguns companheiros cujos nomes desconhecemos. (Esta data não é pacífica…). (É de salientar, por outro lado, o bom acolhimento proporcionado por D. Afonso II (1211-1223), tendo em conta que as relações entre o monarca e o clero não eram muito cordiais! Anulou várias doações feitas à Igreja o que levou o Arcebispo de Braga, Dom Estêvão Soares, a convocar uma assembleia de prelados, censurando o procedimento do Rei que, como represália, mandou atacar as Granjas do Senhor Arcebispo. (História de Portugal de António G. Matoso). O que nos mostra o poder de diálogo de Francisco e dos seus seguidores…Confirma-se a arte de bem dialogar de Francisco de Assis quando, em 1219, (E passo a citar O Papa Bento XVI ) “… falou com o Sultão muçulmano para pregar o Evangelho no Egipto. Já nessa época se estava a verificar um confronto entre o Cristianismo e o Islão. Francisco percorreu o caminho do diálogo e teve um bom acolhimento. É um modelo no qual também hoje se deveriam inspirar as relações entre cristãos e muçulmanos…” A notícia da presença dos frades em Guimarães  criou, naturalmente, grande curiosidade. Então, foram levados à presença dos Magistrados que os interrogaram sobre a sua fé, de onde vinham e quais os seus propósitos, os objectivos que os trouxeram até cá…

Depois, para construir os seus pobres aposentos, Frei Gualter escolheu um lugar fora da vila, no sopé de um monte e de difícil acesso. É, agora, conhecido como Fonte Santa ou de São Gualter, na encosta do monte de Santa Catarina, ou vulgarmente conhecido pelo monte da Penha. Com a permissão do Senhor Bispo lá edificou o pequenino convento. Limitado o terreno, plantou uma sebe ao redor, seguindo os ensinamentos de Francisco que, no século XIII, já recomendava aos seus frades que  não construíssem  muros, ao contrário do que fazem hoje, no século XXI, alguns governantes que dificultam a proximidade das pessoas e o acolhimento humanitário e fraterno dos deslocados e refugiados, dos emigrantes!

“Comiam das esmolas dadas pelos devotos e bebiam da água da fonte”. Mas, pouco tempo os frades ali permaneceram. A pedido do povo aproximaram-se mais da vila, transferindo o Eremitério para “São Francisco-o-Velho”. Com o auxílio dos vimaranenses construíram um pequeno e modesto convento e aqui moraram cerca de 55 anos.

Para além da vida contemplativa, trabalhavam, também, no hospital, cuidando dos enfermos, e ajudavam os agricultores nos campos. Exerciam já o verdadeiro voluntariado caritativo.

Os primeiros historiadores da OFM relatam os ecos da eloquência do Frei Gualter, dizendo que “no remédio das almas era tanto o seu zelo que andava pelas ruas ensinando doutrina e pregando. E se nem com sermões públicos ou com avisos secretos alguns não se emendavam reprendia-os diante de todos”!

Desconhece-se a data da sua morte, mas há quem aponte para o ano de 1259. No entanto, viu ainda com verdadeira alegria alargar-se a presença dos frades menores por Bragança, Alenquer, Coimbra, Lisboa e Porto. Sabemos que assistiu à fundação do Convento de São Francisco, aqui, nesta cidade do Porto.

Após a sua morte começaram as visitas do povo à Fonte Santa onde aconteciam os milagres! Então, para facilitar o uso da água, como meio de cura, construíram  um tanque. E, segundo a tradição, quando alguma pessoa ficava gravemente doente, a pedido do enfermo ou dos familiares, as relíquias eram levadas a sua casa. Oficialmente, porém, Frei Gualter nunca chegou a ser canonizado, apesar dos inúmeros milagres que lhe eram atribuídos! Porém, o seu culto foi aprovado pelo Papa Gregório XIII, pela Bula de 17 de Dezembro de  1577. E reforçado, depois, por Gregório XV, pela Bula que começa: “Considerantes”, passada em Roma em 5 de Abril de 1621.

…E o culto a Frei Gualter não se limitou a Guimarães. As notícias dos seus milagres chegaram a Roma, daí as numerosas indulgências concedidas, por ocasião da sua festa, pelos Papas Gregório XIII (1572-1585) e Gregório XV (1621 -1623) que, como vimos acima, tinham autorizado o culto a Frei Gualter. Também o Martirológico Franciscano, na edição de Roma de 1938, refere que Frei Gualter faleceu a 2 de Agosto (1259?) e acentua, novamente, o reconhecimento do seu culto por Gregório XIII.

A  Confraria em honra de São Gualter, erecta em Guimarães, é também aprovada por Gregório XIII. A Irmandade de São Gualter, que chegou até aos nossos dias, vem desde 1577.

Filipe III (1621-  ) concede que, em Guimarães, se realize a procissão de São Gualter, “com a mesma solenidade e festas com que se faziam as mais procissões da obrigação da Câmara”. (Sabemos que se trata de Filipe IV de Espanha,  que não era bem aceite em Portugal,  era mesmo pouco simpático com os eclesiásticos, obrigando-os a tributos injustos…)

Deram-se várias transladações dos restos mortais de Frei Gualter  provocadas, algumas vezes, pelos Cónegos do Cabido da Colegiada da Senhora da Oliveira.

Após algumas leituras apercebi-me de que os Reverendos Cónegos da Colegiada nem sempre acolheram os frades menores com simpatia! Porém, os irmãos franciscanos contaram sempre com o apoio entusiástico do povo e até das autoridades…..

O dia de São Gualter era celebrado, anualmente, com grande solenidade. As Festas e a Feira realizavam-se no espaço que, ainda hoje, conserva o nome de “Campo da Feira” e onde se localiza a Igreja dos Santos Passos, mas também vulgarmente conhecida por Igreja de São Gualter. De acordo com os estatutos da Irmandade, a Festa de São Gualter continuou a celebrar-se, no 1º domingo de Agosto, mas sem o mesmo esplendor religioso.

          3. DAS FEIRAS  FRANCAS  ÀS  ACTUAIS   FESTAS  GUALTERIANAS

Afonso V (1446-1481), em Abril de 1452, criou a Feira de Agosto, talvez a 1ª Feira Franca de São Gualter. Depois, em 1494, D. Manuel I (1495-1521), a pedido da população vimaranense, mudou a Feira para o dia da Romaria. Assim, às feiras associaram-se as festas e as romarias, enquadradas na religiosidade popular.No início do século XX, as feiras começaram a perder interesse e, face a tal situação, a Associação Comercial de Guimarães revitalizou a Feira de São Gualter e surgiram, então, com todo o esplendor, em 1906, as Festas Gualterianas ou as Festas da Cidade, com a duração de 3 dias, mas revestidas de carácter mais cívico e profano. Tornaram-se património cultural, histórico, sociológico e religioso de Guimarães. Neste âmbito mais alargado integraram-se e desenvolveram-se diversas actividades, como exposições, nomeadamente da indústria e de outros produtos da região. Um ano depois, para além dos cortejos etnográficos, emerge, pela 1ª vez, a célebre ”Marcha Gualteriana”, muito apreciada até aos nossos dias. Pode dizer-se que é um dos números  de maior sucesso no programa das Festas.

Apesar de todas as vicissitudes sabemos que a adesão do povo vimaranense ao seu Padroeiro manteve-se constante ao longo do tempo

Presentemente a Festa de São Gualter celebra-se a 2 de Agosto, coincidindo com a Festa de Nossa Senhora dos Anjos, com o Jubileu da Porciúncula, o Dia do Perdão.

A organização e promoção das Festas que, inicialmente, pertencia à Associação Comercial e Industrial de Guimarães  passou, depois, por várias instituições da cidade, incluindo a Câmara Municipal. Ultimamente a responsabilidade pertence à Cooperativa “Oficina”, uma empresa municipal, continuando, porém, os actos religiosos, particularmente a procissão, da responsabilidade da Irmandade de São Gualter, sedeada na Venerável Ordem Terceira de São Francisco.

Concluindo, as Festas Gualterianas, já centenárias,  continuam a trazer o esplendor religioso às ruas da cidade berço e ganharam uma amplitude nacional.

E, neste ano de 2017, 8 séculos de presença franciscana em Portugal, Guimarães inaugurou as estátuas de São Francisco e de São Gualter que, lado a lado, ocupam um lugar nobre no coração da cidade. Um tributo dos vimaranenses a dois santos amigos, sendo São Gualter,  Padroeiro da cidade. Esculpidas pelo Mestre da terra, Viana Paredes, enriquecem ainda mais a cidade histórica de Guimarães que já é património da Humanidade e que, em 2012, foi capital europeia da cultura. E, no mês passado, a Câmara Municipal  apresentou a candidatura a “Capital Verde Europeia 2020”. Inspirada, certamente, na vocação e espiritualidade franciscana, sempre na defesa da Natureza, da Mãe Terra. São Francisco foi, na verdade, o maior ecologista, o poeta que melhor cantou a beleza da Criação, o irmão de todas as criaturas!

E concluo com as palavras do Senhor Arcebispo de Braga proferidas no acto público da inauguração  das referidas estátuas de São Francisco e de São Gualter, em Agosto passado:  “…Seria bom que a cidade não visse nestas estátuas não apenas mais um monumento, mas um testemunho de vida…Eram homens verdadeiramente apaixonados por Deus e que tinham em Deus a única riqueza”

Porto, Universidade Católica-Faculdade de Teologia, 20 de Outubro de 2017

Alfredo Monteiro-antigo aluno franciscano

Bibliografia consultada:

-“Os Mestres Franciscanos e Dominicanos”, de Bento XVI
-“S. Gualter de Guimarães”, de Aloísio Tomás Gonçalves-
-Ensaio Biográfico- Texto revisto, anotado e introduzido por António de Sousa Araújo.    Braga-1986.
-“As  Gualterianas” -1906-2008, de Célia Fernandes; publicação da Cooperativa “Oficina”

One thought on “Oitocentos Anos de Presença Franciscana – Memória e Vivência

  1. José Gomes
    Sexta, 3 de Novembro de 2017 at 18:29

    Na simplicidade da escrita, o autor percorre em poucas palavras o heroico percurso dos Frades menores que há 8 séculos aportaram ao recanto verde de Guimarães e de cujo fervor e missão perduram as genuínas festas gualterianas. Parabéns Alfredo

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