Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim !

Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim (Jo 12,32)

É uma afirmação paradoxal de Jesus!

Humanamente falando, estava eminente o falhanço do Seu Projecto, e Ele sabia disso; aproximavam-se horas de pavor e de sofrimento atroz, e Ele teve vontade de fugir, mas aquela era a Sua Hora (Jo 12,27), ou seja, o tempo certo para, em coerência com tudo o que tinha dito e feito, selar a novidade da Sua Mensagem e revelar o verdadeiro rosto de Deus Pai a todos os Povos.

Humanamente falando, Jesus bem sabia que – por invejas, ciúmes e medos dos poderosos de então –, o Seu julgamento não seria justo, nem livre, pois a decisão já estava tomada: seria condenado e o Seu Projecto haveria de desaparecer, como tantos outros antes d’Ele: condenando exemplarmente o mensageiro – pensavam eles – a mensagem haveria de desaparecer rapidamente.

Humanamente falando, tudo acabaria ali, com a acção de Judas, a traição de Pedro, a fuga dos Apóstolos e a morte do Mestre; restando apenas a desilusão profunda de quem esperava ver cumpridas as promessas das Escrituras; tudo não passaria de um sonho e os pobres ficariam, uma vez mais, sem defensor e a humanidade sem redentor; quem tinha acreditado n’Ele, haveria de sentir-se enganado por tantas e tão belas palavras que deram em nada: recordemos a amargura de dois discípulos a caminho de Emaús (Lc 24,13-24).

Mas os caminhos de Deus não são os nossos (Is 55,8-10)! Desde o Jardim das Oliveira até ao Gólgota, confrontaram-se duas liberdades, essencialmente distintas: uma capturada pelo ódio e ao serviço da vingança e da violência; outra, entregando-se por amor, ao serviço da misericórdia e do perdão; como na parábola do trigo e do joio (Mt 13,24-30), cada um dos lados foi semeando o que tinha em seu coração!

O exercício da nossa liberdade, quando não vive do Amor e não serve por amor, desumaniza-se e, em última análise, entra em conflito com a própria vida. A caminho do Calvário e no alto da Cruz, suspenso entre o céu e terra, Jesus reconciliou e reinventou, na sua própria carne, a aliança destruída entre liberdade e amor, iluminando e confirmando os passos daqueles que, arriscando a sua vida, se tornam servidores dos seus irmãos!

Ao aceitar sofrer na Sua carne as atrocidades da nossa liberdade sem amor – os pecados da humanidade – Ele mostrou-nos até onde é que a liberdade guiada pelo amor O levou e nos pode levar: até à doação de Si mesmo, até à doação de nós mesmos, desenvolvendo aquela criatividade do amor ou “fantasia da caridade”, como lhe chamou São João Paulo II, que renova a vida e constrói um futuro melhor para todos: é o mistério pascal do Crucificado e Ressuscitado em acção no meio de nós!

Este ano, a pandemia foi parte da nossa Quaresma (para o bem de todos, entrámos em quarentena) e será ela a marcar o ritmo da Semana Santa e do Tempo Pascal. Contudo, o Mistério Pascal não está longe das nossas vidas: em todos os doentes e em quantos lutam pela sua recuperação, acontece Páscoa; em todos os que procuram proteger a saúde dos mais frágeis, não se poupando a esforços, acontece Páscoa; em todos os que suportam o essencial da vida comunitária, dedicando-se ao bem comum, acontece Páscoa… É Cristo a passar junto dos que sofrem, a caminhar com quem cuida, a abraçar quem chegou à sua Páscoa definitiva; e é Ele que a todos nos espera na manhã da Ressurreição, para nos inspirar confiança e esperança num futuro mais humano!

A todos desejo uma Santa Páscoa.
P. Armindo Janeiro

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