SINOPSE DE TRÊS DIAS DE RETIRO

Dirigentes e todo o corpo que integra a UASP – União das Associações dos Antigos Alunos dos Seminários Portugueses, interiorizaram, ao longo de vários anos, enquanto seminaristas, que valorizar o silêncio é facilitar a procura de nós mesmos, sobretudo o interior em vista de uma espiritualidade mais convicta.

Parece ter sido nesse contexto que a sua direcção delineou um retiro para os pretéritos dias 22, 23 e 24 de Novembro, no Centro de Espiritualidade Francisco e Jacinta Marto, em Fátima, que apelidou de Retiro Itinerante sob o lema “Contemplar com São Francisco Marto”, sob a superior direcção de Mons. Luciano Guerra.

Decorreu em ambiente tranquilo, todo ele virado para a espiritualidade, que as várias capelas que integram aquele conjunto arquitectónico convocam, mas sobretudo a capela da tenda. Que tranquilidade!

Foi nesse contexto que no primeiro dia Mons. Luciano Guerra, a abrir, nos recordou que o retiro serve para pôr em ordem as nossas vidas, ajudados pelo silêncio, que induz recuperação e renovação. Renovar a fonte de energia, permitindo que cresçam e se manifestem as raízes que temos em nós. Silêncio e oração são essenciais para a vida e ajudam-nos a tentar conhecer a profundidade máxima do nosso íntimo. Um retiro feito com seriedade mantém-nos ligados a Deus. Também Jesus Cristo se retirava para o deserto, para rezar solitário, tal como Francisco Marto o fazia, escondendo-se para rezar, porque gostava mais de rezar sozinho, para consolar Jesus pelos pecados do mundo.

No dia seguinte, logo pela manhã, demandamos pisadas dos três pastorinhos, passando pelas casas dos dois irmãos e da prima Lúcia, que viveram modestamente mas felizes porque se amavam. E por ali se recordou a sua vida bem como o desapego dela, especialmente por parte de Francisco que não se importava de morrer porque sabia que ia para o céu onde estaria muito melhor! Passamos também pelo poço do Arneiro, a poucos metros da casa de Lúcia, onde o Anjo de Portugal lhes apareceu pela segunda vez e lhes transmitiu que oferecessem constantemente sacrifícios ao Altíssimo.

Findas as visitas aos locais das vivências quotidianas de Francisco, bem como o local do seu decesso, foi hora de regressar ao Centro de Espiritualidade, para continuar a reflexão, desta feita sobre a oração. Sobre o binómio oração/penitência, ou dito de outra forma, sobre a recuperação dos caminhos de Deus, através da relação que emana do contacto. Não há relação sem contacto. É o contacto que determina que o comando do automóvel destranque as portas. É na relação que está a felicidade! Sem relação não podemos existir. De facto não conseguimos ser independentes. Somos dependentes desde o pequeno-almoço, até ao jantar.

Uma relação mais forte com a natureza é salutar, sendo triste ver as crianças atravessar a sua meninice em frente a bonecos, perdendo o seu precioso tempo. Estamos a perder muito tempo com coisas que não valem nada. São milhares de fotografias que nunca mais veremos! Há três ou quatro coisas essenciais para as nossas vidas: O Pai Nosso que estais no céu; O pão-nosso de cada dia; O nosso perdão e o dos outros. Perdoo mas não esqueço! Não serve! Posso lembrar-me das ofensas, mas para perdoar.

É importante cultivar o espírito de oração. Conversar com Deus, mas de uma forma racional. Pedir graças? Evidentemente. Mas também agradecer e pedir para os outros, evidenciando desprendimento.

Evitar conversas em retiro é de primordial importância, prescindindo de relações que normalmente são úteis, mas sem elas, em espaço de retiro, conseguiremos relacionarmo-nos melhor com Deus.

Durante a tarde prosseguimos caminhos que Francisco percorreu rumo à igreja paroquial, onde se recordaram alguns factos da sua vida, designadamente a sua forte relação com o Santíssimo Sacramento. Lembrou-se o momento em que disse a Lúcia: «Olha, tu vai à escola que eu fico aqui junto do Jesus escondido. Não vale a pena aprender a ler. Daqui a pouco vou para o céu!»

Passamos depois pelo local da quarta aparição no dia 19 de Agosto nos Valinhos onde se recordaram as bolandas em que os pastorinhos andaram por aqueles dias pré-aparição e algumas frases que marcaram a vida daquele menino desconcertante em vários aspectos. Quando retidos pelo Administrador do Conselho e perante aquelas ameaças de morte dolorosas dizia ele para Lúcia: «Se nos matarem, como dizem, daqui a pouco estamos no Céu! Mas que bom! Não me importa nada».

Caminhando depois até à Loca do Cabeço, local da primeira e terceira aparições do Anjo de Portugal, onde se continuou a recordar Francisco Marto, caminhamos a seguir para a Capela dos Húngaros, onde participamos na Santa Eucaristia.

Para o serão estava programado um tempo de partilha em diálogo com o orientador Mons. Luciano Guerra, onde se reflectiu sobre as reticências que a mãe de Lúcia colocava à veracidade das visões da filha. Também a própria Igreja tardou em reconhecer os factos, o que muito tem dificultado a mensagem de Fátima, face a alguns críticos com poder mediático. Para acreditar para além da razão é necessária vontade. É com a razão que se dá ou não o salto. E para dar esse salto é necessário querer. E aqui surge a velha história do ovo e da galinha! Afinal quem nasceu primeiro? Os cientistas actuais têm menos certezas que os dos séculos XIX e XX. Hoje com os avanços da ciência, têm mais dúvidas.

Terminamos o dia com um incitamento: Praticai o bem, evitai o mal! Pois é assim que se fortalecem as relações.

No reatamento do ciclo de conferências, já no último dia do retiro, ficou a mensagem de que um retiro é uma revisão! Tal qual nos carros. Se não for realizada continuarão a andar por uns tempos, mas irão parar um dia! Rejubilamos perante as coisas grandiosas que o homem constrói, como os aviões. Mas não passam de uma espécie de boneco de brincar. É no intrínseco de uma peça do avião que está o segredo todo! Se uma falha falhará o conjunto.

Nós não sabemos nada! De um momento para o outro muda tudo. Quanto mais soubermos reflectir sobre o interior, mais possibilidades há de nos modificarmos. É daí que resulta a necessidade de revisão que os retiros proporcionam.

As expressões “γνῶθι σεαυτόν” do grego clássico, e “nosce te ipsum” do latim, que significam “conhece-te a ti mesmo” convidam-nos desde tempos imemoriais a olhar para dentro rumo à perfeição.

Num mundo de grandes tensões sociais e ideológicas, há margem de entendimento! Não é por o outro ser diferente de mim que é mau. Diferente não quer dizer contraditório. Agora poderá significar que tenhamos de pedir a Deus a graça de compreender a grandeza da diversidade. Conhecer o próximo é muito mais difícil do que conhecer-te a ti mesmo. Na diferença existe muitas vezes complementaridade.

É fundamental amar o próximo como a nós mesmos! A vida induz necessariamente sofrimento. “In omnibus réspice finem”. Em tudo o que faças, olha para o fim.

Pensemos na eternidade.

Terminada a última conferência houve um tempo de oração e adoração em ambiente de grande recolhimento.

Após o almoço foi tempo de assembleia-geral da UASP, na qual se aprovou o orçamento para o ano que vem, os eventos que marcarão 2020, como a VI Etapa do projecto “Por Mares Dantes Navegados” em azimutes moçambicanos, lá para meados do ano, as Jornadas Culturais em terras do Berço da Nação e zonas limítrofes, no início de Setembro e ainda uma Sessão de Estudo sobre as várias traduções da Bíblia para português, na manhã de 21 de Novembro, ficando a tarde reservada para a Assembleia-Geral de Outono.

E, pelo meio da tarde, cada qual regressou a sua casa, estamos certos, muito mais ricos interiormente.

Américo Lino Vinhais
Gabinete de Comunicação

5 thoughts on “SINOPSE DE TRÊS DIAS DE RETIRO

  1. Luís Vieira da Silva
    Segunda, 2 de Dezembro de 2019 at 11:35

    Bom dia
    Obrigado pela realização do retiro.
    Este caminhar dentro de nós mesmos permite-nos carregar as baterias. Fazer a tal revisão do carro na imagem do Monsenhor Luciano. Aceitar positivamente e de forma construtiva a dependência para cimentar as relações que nos permitem seguir em frente.
    A todos um santo Natal.
    Luís Vieira

  2. António Baptista
    Domingo, 1 de Dezembro de 2019 at 06:06

    Difícil melhor síntese. Grato pelo apontamento e pela simpatia, inclusive à mesa. O meu abraço para o casal Vinhais.

    1. Américo Lino Vinhais
      Domingo, 1 de Dezembro de 2019 at 18:19

      Muito obrigado. Um abraço também para si

  3. David Francisco
    Sábado, 30 de Novembro de 2019 at 22:40

    Olá, Américo. O meu abraço pela tua síntese excelente.

  4. Sábado, 30 de Novembro de 2019 at 21:24

    Saudações franciscanas de PAZ E BEM

    Ainda dentro da oitava do nosso retiro, em Fátima, temos a graça de o continuar!…. Na verdade, o Américo Vinhais apresenta uma síntese perfeita do que nos foi transmitido e testemunhado pelo orientador Monsenhor Luciano Guerra nesses dias do retiro itinerante….. É bom recordar, reviver, interiorizar e peregrinar……..
    Com um abraço amigo e fraterno
    Alfredo

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