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Quarta-feira, Outubro 20, 2021

A sirene dos estaleiros

Ainda bem ensonada, ela apitava, apitava cedo, pelas oito horas daquele inverno bem frio – que havia de levar a ‘Febre Asiática’ a mandar para casa os estudantes do País – com a ronca a fazer de bicho papão ao nevoeiro que tanto aflige quem, com tal tempo, moireja sobre as águas do mar…
Porém, havia já uma boa hora que aqueles adolescentes, esfregando os olhos, se tinham levantado. Arregaçadas as mantas para arejar a cama, cada qual com seu jarro de água, fizera as abluções matinais, no respetivo lavatório de esmalte branco, alinhado com os demais ao fundo da camarata.
Bem breve, na capela, se celebrava a missa naquele altar de madeira rendilhada ao toque do órgão vibrado por Dom José Anguerri, do País Basco. Mais invejável a tarefa de ‘ajudante da missa’, que se arrogava o direito – que hoje se diria ‘conquistado’, quiçá ‘inalienável’ – de, à sorrelfa, escorripichar a galheta da sobra do vinho da celebração. Infelizmente a ele não lhe tinha calhado a vez naquele dia, o que lhe deixava azo a distrações.
Adregou até de lembrar-se daquela tarde de outono em que andava a ajudar o pai a podar a ‘Vinha Alta’. Acabara de chegar nova carta da Direção-Geral de Assistência à Família que – depois de três anos a enrolar – comunicava então sentença sem recurso: o processo tinha sido arquivado!
Tal notícia muito alegrou o pai que há muito insistia para que ele seguisse ‘aquela vida’…
Ora, aconteceu, naquele ano, enorme chusma de candidatos ao exame de admissão, que não era como aquele que há três anos fizera no Liceu. Este durara oito dias! Mesmo assim, foram tantos os admitidos que tiveram de exportar os mais miúdos para as Freirinhas de Buarcos. Os outros lá ficaram por aquele internato que tinha sido colégio modelar de todo o país – sob a sabedoria de José Luís Mendes Pinheiro, irmão do Padre Pinheiro, também ele fundador de um Colégio, o ‘Manuel Bernardes’ que perdura na cidade de Lisboa. Aquele tinha, inicialmente, o nome de Collegio Lyceu Figueirense, que – anos depois de andar pela Bélgica acossado pelas ‘forças democráticas’ – em 1936 se tornara Seminário da Imaculada Conceição.
Embora sem cavalos, lá continuava o picadeiro, as diferentes estruturas de educação física e desportos. E a exigência do ensino e de boa alimentação, tudo para cumprir o lema – que reinava antes do triunfo do néscio ‘eduquês’ – ‘cabeça sadia em corpo saudável’.
A alimentação? Excelente, pese embora as esquisitices de quem não engraçava com favas ou polvo: só as meias lhe haveriam de valer para contrabandear tais iguarias para fora do refeitório!
Boa parte das provisões vinham de fora cada dia na seira da bicicleta daquele Ti Zezito que pouco crescera mas era impecável nos peixes, nos polvos, nas carnes, nos bifes… A quinta – sob a alta responsabilidade do Ti Miguel da Quinta – lá fornecia carne de porco, ovos e galinhas, além de hortaliças e frutas. Quanto ao vinho – servido um copinho só uma vez por semana – constava que era um pequeno negócio das vinhas da Bairrada do Senhor Reitor que também explorava a ‘Tasca do Senhor João’ – a papelaria e livraria monopolista da instituição.
Além do pessoal da quinta, os notáveis da logística eram também homens: o Ti Domingues, o Ti Miguel, o Ti Zé Fadigas e outros das limpezas. O António, de Almalaguês, era um verdadeiro ambrósio. Marcando compasso de 3 por 8, servia os senhores padres à mesa e tinha sempre mais uns grelos para o Senhor Reitor: – ‘Ó António, traz cá grelos!’
As senhoras – sem direito a donas – na cozinha e na lavandaria, pouco se deixavam ver. Eram a Antónia, a Celeste, a Delfina, a Maria Clementina, a Maria da Conceição, a Maria Emília, a Maria Saraiva, a Natália e a Providência.
Quanto a ele, o tal rapaz das divagações, muito apreciava aquele homem grande que ia passar os fins-de-semana a casa, a Arazede. Era o jardineiro, a quem chamavam o Senhor Dupont, curioso personagem do livro de Francês daquela época. Ele sabia o nome de todas as ervas, flores e árvores do jardim que cuidava com carinho e amor que regalavam os olhos!
Mas há que parar de pensar nos recreios, nas milhentas atividades ao ar livre, pois às 9 horas, toda a gente, em respeitoso silêncio, irá aguardar os senhores professores às portas das salas de aulas. Assim, de segunda a sexta-feira com pausa para almoço e recreio. À quinta-feira, por tradição, não havia aulas, sendo tempo de trabalho – no ‘salão de estudo’. Ao sábado, as disciplinas eram Ginástica, Futebol, e ‘Civilidade’ – gloriosa antecessora da polémica ‘Cidadania’ – em que se aprendia regras de etiqueta e a complicada arte de descascar, e comer, a fruta de faca e garfo.
Os senhores professores, todos muito exigentes – ‘conjuga e declina, saberás a língua latina!’ – prescindiam do salário, como os doutores Víctor Guerra, Pedrosa Veríssimo, Jorge Biscaia, João Lobato…Só os senhores padres recebiam a cinco escudos por aula. Por onde andariam os mários nogueiras desses ominosos tempos?!
Alto, alto! A sirene dos Estaleiros do Mondego despertara-o daquelas vagueações. Animava-o, porém, pensar que estava mesmo a chegar o pão fresquinho com aquela gulosa manteiga com sal, acabada de bater que – debaixo da rosa do sol – igual não haveria de inventar-se.
‘Hinos de glória à Imaculada / Cantemos hoje em Seu louvor!’
Elias Quadros, AAASDCoimbra

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