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Quarta-feira, Julho 28, 2021

A economia de Francisco – 6

Ser fermento onde quer que nos encontremos

Ouvindo os vários debates e fóruns sobre economia, inclusive com a participação de peritos de formação cristã, tenho reparado que se apela sempre ao testemunho de quem julga saber da matéria ou de quem tem tido êxito na vida empresarial. Pensa-se na melhor maneira de produzir riqueza e na melhor forma de a distribuir equitativamente. Mas isto, como afirma o Papa Francisco, não basta. «É preciso que os pobres e excluídos se tornem protagonistas da sua vida e de todo o tecido social. Não basta pensar por eles e em vez deles. Temos de pensar com eles». Creio que é este o enorme desafio a todos nós. Baste pensar nas famosas reuniões do G20, o grupo das 20 nações mais desenvolvidas, que tomam decisões e propõem soluções, mas sem as pensarem com representantes dos países pobres e tendo em vista primordialmente erradicar de verdade a pobreza estrutural e cuidar amorosamente do planeta terra que também está gravemente doente.

Não podemos separar o económico do humano; o desenvolvimento, da civilização em que se insere. Aquilo que conta, para nós, é o homem, todo o homem, todos os grupos de homens, até incluir toda a humanidade, afirma Francisco, citando a ‘Populorum Progressio’, nº 14.

Neste sentido, acrescenta o Papa aos jovens dos 115 países representados na reunião de Assis: «muitos de vós terão a possibilidade de agir e incidir em decisões macroeconómicas, onde se joga o destino de muitas nações. E é preciso que neste cenário participem pessoas bem preparadas, ‘simples como as pombas e prudentes como as serpentes’ (Mt 10,16), capazes de vigiar para garantir que o desenvolvimento dos países seja sustentável e para evitar a submissão asfixiante de tais países a sistemas de concessão de crédito que, em vez de promoverem o progresso, submetem as populações a mecanismos de maior pobreza, exclusão e dependência», como já denunciou em discurso à ONU, a 25 de Setembro de 2015. É preciso que os acompanhe: «um modelo de solidariedade internacional que reconheça e respeite a interdependência entre as nações e que favoreça os mecanismos de controle, capazes de evitar todo o tipo de submissão, e ainda vigiar para que se promovam os países mais desfavorecidos e em vias de desenvolvimento. Cada povo é chamado a tornar-se artífice do próprio destino e do destino do mundo inteiro». Mais uma vez, a insistência em que os pobres sejam envolvidos na busca das melhores vias de progresso mundial.

Mas então, perante o que vemos que se passa com as grandes organizações mundiais, onde os pobres, praticamente, não têm voz, podíamos ceder à tentação de que não vale a pena lutar por um mundo realmente de irmãos. Francisco é taxativo: «não escolhais as escapatórias, que seduzem e vos impedem de vos misturardes para serdes fermento ali onde vos encontrardes. Nada de escapatórias! Sede fermento, sujai as mãos!».

Da crise sanitária não sairemos iguais. Ou sairemos melhores, se nos tornarmos realmente mais irmãos; ou sairemos piores, se voltarmos a cair num febril consumismo e em novas formas de auto-protecção egoística. «Façamos crescer aquilo que é bom, aproveitemos a oportunidade e coloquemo-nos todos ao serviço do bem comum, aprendamos a amadurecer um estilo de vida em que saibamos dizer ‘nós’. Mas um ‘Nós’, com maiúscula», um ‘nós’ que engloba de verdade os outros.

Sabemos pela história que não há sistemas nem crises que anulem completamente a capacidade, o engenho e a criatividade que Deus não cessa de suscitar nos corações… «vós podeis unir-vos a outros e tecer um novo modo de fazer a história. Não temais comprometer-vos e tocar a alma da cidade com o olhar de Jesus. Não tenhais medo de habitar corajosamente os conflitos e as encruzilhadas da história para as ungir com o aroma das Bem-aventuranças. Não temais, porque ninguém se salva sozinho. Temos necessidade uns dos outros para dar vida a esta cultura económica; temos de ser capazes de fazer germinar sonhos, suscitar profecias e visões, fazer florir esperanças, estimular confiança, sarar feridas, estabelecer relações, ressuscitar uma alvorada de esperança, aprender uns dos outros e criar um imaginário positivo que ilumine as mentes, aqueça os corações, dê força às mãos e inspire nos jovens – todos os jovens, sem ninguém excluído – a visão de um futuro cheio da alegria do Evangelho».

Francisco habituou-nos a que nos sintamos olhados por ele com o carinho e encanto de um pai enamorado dos seus filhos, mas nesta alocução aos jovens excedeu tudo quanto se poderia esperar no incentivo à luta tenaz por um mundo mais justo e fraterno. Por um mundo de irmãos.
Francisco é, de facto, o grande Profeta da Esperança, nos nossos dias.

P. Carlos Vaz, ASSASBraga

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