A UASP EM S. TOMÉ E PRÍNCIPE

A UASP – União das associações de antigos alunos dos seminários portugueses – da qual faz parte a ASDL – Associação de antigos alunos do seminário diocesano de Leiria, em continuação do programa “Por mares dantes navegados” viajou até S. Tomé e Príncipe entre 12 e 20 do corrente mês de Julho.
É a terceira localidade visitada no decorrer deste programa. Primeiro Cabo Verde, depois a Guiné Bissau e agora estas ilhas do Atlântico situadas no golfo da Guiné, em frente a Libreville, capital do Gabão, e na linha do equador como provou Gago Coutinho com os seus estudos.
O grupo era constituído por 18 pessoas. Membros da direcção, o nosso caro Pe Armindo Janeiro, o Sr Alfredo Monteiro, antigo aluno dos Franciscanos morador em Guimarães, o nosso colega António Agostinho de Ourém. Além destes a Isabel Oliveira, colaboradora da direcção, e antigos alunos, familiares e amigos.

Um pouco de história

S. Tomé e Príncipe foi descoberto por João de Santarém e Pedro Escobar em 1470, tendo a descoberta ocorrido em dia de S. Tomé, sendo essa a razão do nome que lhe foi atribuído.
Apesar de haver quem pense que já aqui existiam habitantes, é tradição dizer-se que estes descobridores foram os primeiros, tendo posteriormente sido para aqui enviados cristãos novos oriundos de Portugal e Espanha e condenados que aceitaram a deportação em vez do cárcere.
A primeira cultura introduzida foi a cana do açúcar, que não conseguiu bater em rentabilidade o Brasil. Ainda hoje são visíveis alguns canaviais, mais ou menos abandonados.
No decorrer do séc. XIX impôs-se a cultura do cacau e do café, tendo sido importada mão de obra escrava de Cabo Verde e de Angola.
Daí nasceram as roças, grandes superfícies dedicadas à cultura, com um núcleo central constituído pela Casa colonial do patrão e sua família, alojamentos para os serviçais, e grandes, por vezes monumentais armazéns para arrecadação e tratamento da colheita. O interesse da cultura levou ao desenvolvimento das vias de comunicação, estradas, pontes, linhas de caminho de ferro em direcção aos portos, tudo porque o acabamento do produto e a sua colocação no mercado nunca esteve nas mãos dos santomenses. A partir de determinada altura, a escravatura tornara-se ilegal e não podia subsistir sobretudo por pressão da Inglaterra como se descreve no livro Equador, de Sousa Tavares. Arranjaram-se formas mais ou menos disfarçadas e revoltas por parte dos trabalhadores houve várias. Alguns patrões e encarregados responderam brutalmente, impondo a força das armas que não chegavam às mãos dos revoltados. Acorrentados uns aos outros, os revoltados foram sendo empurrados, em alguns casos, até ao mar. Um monumento ainda recente recorda esta tragédia.
O regime, mais ou menos violento, foi-se mantendo até que o 25 de Abril ditou a independência. Patrões e encarregados deram à sola e as explorações são hoje imagens de desolação, em ruínas, portas e janelas escancaradas, telhados de chapa ferrugenta, paredes cobertas de musgo no meio da vegetação que delas vai tomando conta. Chocantes as imagens da Roça do café, onde ainda se pode ver uma interessante exposição dedicada à atividade, a Roça Paciência, com o seu sino que acordava os trabalhadores ou os convocava para assistirem ao castigo de algum faltoso. Aqui ainda se faz a secagem de alguns produtos e a preparação e venda de especialidades, trabalho executado por uma colaboradora voluntária natural de Vila Nova da Barquinha.
Abandonadas as roças pelos proprietários, o novo governo tratou de dividir as grandes propriedades, distribuindo-as pelos interessados. Assim se dava o segundo passo para a destruição da economia do café e do cacau, só rentável em grandes superfícies e com apoio de capital que permita subsistir durante os sete anos que a planta leva a produzir. Consta que, segundo um estudo recente, 40% da população deseja o regresso dos portugueses… quando só pessoas acima dos 50 anos poderão lembrar-se de como era a vida nesses tempos.
O bom resultado desta viagem deve-se, em parte, à colaboração do Bispo da diocese de S. Tomé e Príncipe, D. Manuel António dos Santos, natural de Castro d’Aire, membro da congregação dos Padres Claretianos, com especial ligação a Leiria e a Fátima onde decorreu a sua sagração episcopal, após o que foi nomeado para S. Tomé a cuja Diocese preside desde 2007. Foi ele que sugeriu o programa da viagem englobando o contacto com as instituições da igreja por estas paragens, o conhecimento dos problemas com que se debatem e os resultados que tem conseguido. Também por seu intermédio tomámos contacto com a instituição Leigos para o Desenvolvimento, com um núcleo de voluntários a funcionar na sede da Diocese, formando professores, promovendo o ensino de informática, reunindo os comerciantes e debatendo técnicas de venda, além de outras actividades.

A ilha do Príncipe

… Situa-se a 140 Km de S. Tomé, e aí se chega num pequeno avião de 30 lugares. A capital é Santo António, inicialmente Santo António, Abade, mas os residentes deixaram o Abade e optaram por Santo António de Lisboa, mais próximo e mais popular. Bem vistas as coisas, a cidade de Santo António do Príncipe pareceu-me ser a pior imagem da ilha, cuja riqueza da vegetação ultrapassa em muito as ruas de terra batida e umas centenas de metros de alcatrão a desfazer-se. Aqui contactámos uma casa onde duas religiosas se encarregam de apoiar os mais idosos, as crianças em dificuldades e dão catequese. Os apoios já foram mais volumosos, mas Deus nunca falta e fazer o que é possível é quanto basta para se encontrar a felicidade. Ainda no Príncipe destaca-se o belíssimo resort em que ficámos alojados, situado no sítio Bom Bom, rodeado de praias de água quente e uma ponte pedonal com mais de cem metros por cima do mar para chegar ao restaurante do hotel, em parte ao ar livre. Bangalows discretamente erguidos no meio da vegetação, tudo natural, nada de plásticos. Proprietários sul africanos mas gerentes portugueses.
Duas antigas roças estão a ser transformadas em hotéis de elevado nível. Mas o que mais fica na memória é a floresta virgem que nos rodeia em quase todos os momentos.

S. Tomé

…É mais pobre de vegetação, sobretudo no norte onde se situa a capital, cujas ruas, a longa marginal e um cais das colunas sofrem de falta de cuidado, alcatrão desfeito e lixo quanto baste.
Mas servem de contra peso algumas localidades. A povoação das Neves, com uma vasta igreja recém construída e uma assistência à missa dominical que, pelo seu número, entusiasmo, participação e organização envergonharia mais de metade das igrejas do nosso país. Na localidade contactámos ainda uma casa de religiosas Franciscanas que apoiam um grande número de actividades. Instalações modelares, carpintaria e costura que se bastam economicamente, creche, educação materno infantil, horta… a responsável é natural da Caranguejeira, da diocese de Leiria.
Na localidade de Angolares, religiosas naturais de Angola, Teresianas, fundadas por Santa Teresa de Ávila, dão alojamento, apoio e formação a cerca de quarenta meninas dos 2 aos 20 anos. As que estão na idade frequentam a escola oficial.
Em Santana ouvimos do missionário P. Manuel Cristóvão um brilhante testemunho da sua acção junto da população que está ao seu cuidado.
Na visita ao ilhéu das rolas fizemos uma visita guiada pelos itinerários da ilha incluindo o memorial que assinala a linha do equador segundo estudos do Almirante Gago Coutinho.
Ficam curiosas recordações.
… o entusiamo com que crianças e adultos nos saúdam a cada momento…
… os caminhos para chegar a Bombaim – terra batida que a vegetação e as chuvas vão deteriorando, carris dos antigos caminhos de ferro que foram arrancados para fazer passagens sobre as linhas de água…
… o João dos Tachos, que já foi em Portugal personagem popular muito em evidência, e agora se dedica à cozinha fazendo luxo de apresentar um almoço com nove entradas…
… o restaurante Mucumbli incluído numa roça em que há todo tipo de árvores de fruta tropical, todas devidamente numeradas e catalogadas, um nunca mais acabar de surpresas e originalidades…
… a quantidade de mulheres a lavar roupa nos rios e a paisagem multicor das peças de roupa a secar na relva e nos calhaus…

A UASP pode bem considerar que está de parabéns por esta realização.
Da minha parte um sincero agradecimento pela oportunidade e desculpem os participantes se não consegui dar uma ideia satisfatória do entusiasmo com que todos vivemos esses dias…

A Nogueira

2 thoughts on “A UASP EM S. TOMÉ E PRÍNCIPE

  1. Manuel Gonçalves
    Sexta, 25 de Agosto de 2017 at 15:40

    O paraíso deixado tem de ser construído com os seus habitantes e com aqueles que por ali andaram. Vamos fazendo alguma coisa mas muito mais tem que ser feito. Mãos à obra a recosntrução é para todos…

  2. Fernando Faria
    Domingo, 30 de Julho de 2017 at 20:27

    Bonito relato, Agostinho Nogueira.
    A ideia que fica de S. Tomé e Príncipe, quer nas palavras quer nas imagens, é a de um país que ainda não conseguiu erguer-se dos escombros deixados pela partida dos colonizadores/exploradores (é o termo!): um pequeno paraíso por arrumar!

    Parabéns à UASP e aos participantes!

    F. Faria

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