O regresso a África …

Depois de Cabo Verde e Guiné-Bissau, a UASP – União das Associações dos Antigos Alunos dos Seminários Portugueses – regressou a África e chegou a São Tomé e Príncipe. O projecto, antes sonhado, “Por mares dantes navegados”, continua a cumprir-se com entusiasmo e o mesmo sentido de missão: a Fé celebrada e vivida; pequenos gestos de solidariedade; abraços de proximidade e de fraternidade que ajudam a consolidar a Esperança de povos irmãos.

Quando aos 10 anos frequentava a 4ª classe, na escola modesta de uma aldeia ignota, dependurada nos montes transmontanos, soube que João Santarém e Pedro Escobar descobriram, em 1470, São Tomé e Príncipe. Sonhava, eu lá, que, séculos depois, iria pisar o mesmo chão! Pois é, em Ambolô, pude tocar no padrão que assinala o local desse feito histórico dos navegadores portugueses.

Ao tempo da descoberta as ilhas estavam desabitadas. Agora, sabemos que cerca de 190 mil pessoas, maioritariamente jovens,  habitam estas terras paradisíacas. As paisagens, a fauna, a flora, mas, sobretudo, as diversas comunidades humanas são realidades fascinantes. É a Natureza no seu estado original, toda a beleza da Criação! Terra fértil.  Ali,  o semeador saiu a semear e a semente caiu em boa terra…..  Como dizia o nosso guia Fernando:  “…. bota semente no chão e puxa logo!…”.

Desde o princípio que a influência portuguesa em África é fortemente visível. A ocupação territorial, a exploração dos recursos naturais e a evangelização. E, aqui, não foi nem é diferente, 43 anos após a independência. Mas, agora, com influência maior na cultura, no apoio e desenvolvimento social e na mensagem  cristã que os naturais retribuem com amizade e generosidade.  Sentimos essa exemplar atitude, com maior sensibilidade, aquando numa das visitas à ilha profunda de São Tomé, de um ancião que regressava cansado da mata onde colheu alguns frutos e, deparando com o nosso grupo, saudando-nos fraternalmente, logo partilhou connosco, com palavras amigas e sentimento cristão, os poucos frutos que trazia!…

São Tomé foi, em tempos, o principal produtor de cana-de-açúcar, intensificando-se, paralelamente, o tráfico dos escravos. Depois, apareceu a concorrência brasileira, mas a economia local recuperou, de novo, com as grandes plantações de cacau e de café. São as conhecidas roças com os patrões e os serviçais… Não pretendo desenvolver este tema que teve episódios extremamente tristes e condenáveis. Porém, foi muito agradável a nossa visita ao “Museu do Café” onde um guia nos conduziu, com segurança e distinção, pelas várias fases do ciclo do café, desde a sementeira e plantação até ao grão selecionado e embalado… Hoje  é uma cooperativa de pequenos produtores.

Algumas destas roças converteram-se em centros de atracção turística com estruturas e equipamentos de excelência e, principalmente, com colaboradores de elevada simpatia e qualidade profissional.

A riqueza natural e edificada dos lugares visitados e, principalmente, as comunidades humanas, maioritariamente jovens e escolarizadas, dão-nos a esperança, a médio e longo prazo, no progresso cultural e social. Entre outros factores necessários para essa merecida conquista é preciso que aconteça, também, a “conversão ecológica” dos governantes locais e mundiais, evitando, assim, o aumento  da  pobreza e da exclusão social, face ao  consumismo desenfreado e à exploração dos recursos naturais pelos países mais ricos. Nesse sentido, a encíclica “Laudato Si”, do Papa Francisco, avisa-nos com bastante a propósito, inspirado no grande ecologista, Francisco de Assis, o Irmão Universal.

Em São Tomé e Príncipe a natureza é generosa. Colhem-se frutos variados das suas frondosas árvores, como: banana, cacau, fruta-pão, jaca, coco, manga, etc… Mas, naturalmente, não podemos esconder a existência de focos de pobreza extrema que atinge, de modo particular, as crianças, na 1ª infância, e os idosos. O que ali se vê, sente e acontece, tornou-se mais evidente nos contactos  estabelecidos com a Igreja local, principalmente com o seu Bispo, Dom Manuel dos Santos, um verdadeiro pastor, profundamente identificado com o seu rebanho. Mais do que eu possa escrever, aconselho a leitura do seu livro de poemas, “De Que Cor São As Palavras?”. Tivemos o privilégio de participar no seu lançamento. Diz o autor: “… reuni poemas que ajudam a pintar a vida com as cores da esperança, com as cores da primavera e do verão, com as cores dos frutos maduros… E quando a angústia e o medo tiverem as cores da solidão e da noite escura, haja sempre uma palavra nascida no coração de alguém que seja mão amiga, candeia acesa, companhia de ternura e pão”. E o redactor do prefácio do livro afirma que “ O autor tem  coração missionário e vocação de profeta”. E assim é…

Os párocos, os missionários e missionárias, os jovens leigos para o desenvolvimento estão todos em comunhão com Deus, com a Igreja e com os mais pobres e os simples.

Este meu relato que procurei colorir com poucas palavras, ao jeito de “leve-leve”, como lá se diz, não pretende ser exaustivo. Certamente que haverá mais e melhores cronistas. Mas, nestas viagens africanas há sempre aventuras que exigem maior espaço. Não esqueço a emoção vivida e exuberantemente manifestada na linha do Equador, com um pé em cada hemisfério,  ali, no ilhéu das Rolas,  onde chegámos num pequeno barco, sulcando as ondas bravas do mar picado que parecia ralhar connosco, mas “sem guerras e perigos esforçados…”. Também não vou esquecer a “Chapelin”, um lindo papagaio africano,  mascote do hotel “BOM BOM”, que, na primeira refeição ao ar livre, na ilha do Príncipe, depressa se juntou ao grupo e ajudou-me a comer o apetitoso bife de atum!!!  Depois, manhã cedo, era diligente a despertar-nos para o banho nas águas azuis daquelas belas praias…

Concluo, retirando da revista “Além-Mar”, do mês em curso, o comentário de um escritor viajante: “… cada dia em África pede para ser absorvido como se não houvesse outros…”

Alfredo Monteiro – antigo aluno franciscano.

3 thoughts on “O regresso a África …

  1. Sexta, 11 de Agosto de 2017 at 19:22

    Olá, caros amigos, férias felizes….

    Escutei com muito agrado a entrevista do Pe. Armindo Janeiro, presidente da direcção da UASP, assistente espiritual e coordenador das viagens realizadas a Cabo Verde, Guiné-Bissau e, em Julho último, a São Tomé e Príncipe. Consegue, em cerca de 20 minutos, apresentar e desenvolver o projecto em marcha, “Por mares dantes navegados”! Naturalmente, a entrevista, pela oportunidade, incide mais na missão a São Tomé e Príncipe e ilhéu das Rolas…. Introduz temas novos e completa as crónicas e reportagens, até agora, divulgadas.
    Abraço aos companheiros de viagem e aos leitores dos textos publicados.
    Alfredo

  2. Ceres Machado
    Domingo, 6 de Agosto de 2017 at 21:47

    Prezado Amigo Alfredo
    Ouso chama-lo de amigo ,embora de além mar,após nossa viagem ao Marrocos e por termos mantido contato por e-mails.Com grande alegria compartilho suas viagens¨ missões¨.
    EStive em Junho na Africa do Sul ,foi uma grande experiencia de vida.

    Transmita minhas recomendações a Teresa,assim como um grande abraço
    Ceres Machado

  3. Antonio Borges da Cunha
    Sábado, 5 de Agosto de 2017 at 20:30

    Tenho pena de não ter ido.
    Todavia todos nós teos pena de não ter ido a qualquer lado.
    Parabéns a quem foi.
    ABRAÇOS
    ABCunha

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