(Navegantes em busca da História, da civilização,
e dos grandes locais da “Nova Humanidade”)
(Parte II)
Daqui (Ankara), seguimos para uma região verdadeiramente mítica e fantasmagórica, a Capadócia. Paisagem mais agreste e seca, mas moldada pela natureza com uma beleza tamanha, que permite esquecer a terra fértil de outras paragens. Nesta altura do ano, passámos a ter, sempre como pano de fundo, mais distante ou mais perto, montanhas cheias de neve. Seria a última imagem que poderíamos imaginar para este local. Isso também torna muito pitoresca esta paisagem. Bem sei que em junho e até ao final do verão, desaparece, mas para nós, foi um verdadeiro regalo.
E a Capadócia exibiu-se como verdadeira fantasia, na paisagem árida e irregular, mas ladeada de montanhas, lá longe, cobertas de neve. O resto, já sabem: chaminés de fada, formações geológicas moldadas pela erosão dos agentes ao longo dos milénios, as aldeias trogloditas, as povoações dentro das montanhas, as igrejas/mosteiros da idade média. E também os balões. Uma cena turística moderna, mas esplendorosamente bela. Na hora de subirem, e na sua máxima quantidade, os cerca de 150 balões transportam o prazer dos que se aventuram naquela delícia, mas polvilham os céus com uma beleza alucinante, ao nascer do sol. Foi também aqui que participámos numa “noite turca”, uma festa com danças e músicas, entre o recente o a tradição… coisas do turismo.
Visitámos também uma fábrica de pedras preciosas e semipreciosas, com trabalhos delicados e majestosos. E uma fábrica de tapetes turcos, os verdadeiros. Fora a parte comercial, sempre em destaque nestas paragens, apreciei e surpreendi-me com a técnica de fabrico dos tapetes, e também dos materiais utilizados. No processo de fabrico os colaborares (quase sempre mulheres), não falam, porque a concentração tem de ser total. Seduziu-me essencialmente o trabalho com seda natural. Vimos terminar uma réplica de Miró, num painel pequeno, para quadro de parede, tão fino, tão delicado, tão maravilhosamente respeitado, no que se refere às cores e perfeição dos contornos, que até pasma. Vimos casulos do bicho-da-seda. As larvas têm de ser mortas antes de saírem do casulo, porque senão roem o fio e estragam-no. Os casulos, milimetricamente antes da larva estar em ponto de sair, são mergulhados em água quente, depois com um pincel semirrígido, passam no casulo para encontrar a ponta do fio. E lá está… cada casulo tem apenas um fio, finíssimo, delicado, que pode ter entre 800 metros e 2 km de comprimento. Fantástico. Depois tem de dobar-se e entrançar-se para criarem resistência. Naquele Miró que apreciámos, cada fio com que se trabalha lá, é constituído por 30 filamentos de seda. Impressionante, porque ainda assim é superfino, mas resistente.
Depois fomos para Konya, passando e parando em Tarso, aquele local mágico na nossa peregrinação, de que já falei antes. Nesta cidade, e numa paisagem completamente diferente da que deixámos, mas sempre com montanhas e neve à vista, visitámos em Aspendos, o teatro romano mais bem preservado da Turquia. Enorme e, praticamente completo. Uma acústica difícil de explicar. Para testar, mandaram-me cantar. Como estava ainda quase afónico, acabei por recitar um poema de Torga “História antiga” … e lá começo:
Era uma vez lá na Judeia, um rei.
Feio bicho.
De resto uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças…
Bem, e o resultado é de facto surpreendente. Senti-me mesmo a participar num teatro romano.
Logo perto entrámos dentro de outra cidade romana. Muito bem recuperada e verdadeiramente monumental: Perge, na antiga Panfília. Também aqui peregrinámos; S. Paulo pregou aqui. Que desenho de cidade, que luxo ao tempo. Encantou-me o espelho de água, ninfeu, a partir da fonte das ninfas e por toda a extensão da avenida, até à porta romana. Que bênção e que luxo naquele território quente. Podemos imaginar o bulício daquelas ruas majestosas. E quantos novos cristãos S. Paulo aqui converteu, num ambiente belo, mas, certamente hostil por mil crenças, ditadura imperial e até pelo convite do fausto e riqueza destas cidades? Só movidos por um profundo ideal e por estarem verdadeiramente convencidos da sua mensagem, que era de Cristo, seria possível progredir em tal ambiente.
Seguiu-se Pamukkale, com um fenómeno único no mundo, o chamado “castelo de algodão”, que experimentámos, e consiste num sistema natural de piscinas em socalcos em formação calcária com quedas de água entre elas, encosta abaixo. Ali mesmo apreciámos as ruínas de mais uma cidade romana, Hierápolis, onde também pregaram apóstolos, no caso de Filipe, até ao martírio, ali ocorrido e onde foi sepultado. Já antes referi nos sentires.
Na continuação do nosso monumental percurso, viajámos para Sardes, cidade outrora importantíssima, capital da Lídia, onde foi inventada a moeda, sete séculos AC. Aqui visitámos a Acrópole, o templo de Artemis, a Sinagoga e o Gimnasium. Passámos e visitámos de forma panorâmica Izmir. A paisagem mudou totalmente há um tempo. Chegámo-nos para o Mar Egeu, ainda não perdemos a cordilheira nevada, mas os terrenos agrícolas férteis e extensos dominam agora uma Turquia tecnologicamente evoluída para a agricultura.
E chegámos a Kusadasi. Cidade balnear, exposta num anfiteatro natural da montanha, procurada por muitos europeus e asiáticos. O nosso hotel preciosamente localizado com uma soberba vista para o mar, induziu-nos a baixar até à beira-mar para presenciar um belo pôr do sol. A praia, afinal, “não chega aos calcanhares” de qualquer praia portuguesa. Mas, no geral, a paisagem é muito gostosa.
Estamos na zona de Éfeso. No dia seguinte muito bem aproveitado, que era domingo, fomos visitar um santuário onde, segundo a tradição (investigada e com sérios indícios de veracidade), a Virgem Maria terá vivido com o apóstolo João os últimos anos e dias da sua vida terrena. Mais um local marcante da nossa peregrinação e do mundo. Pena que não tenha a devida projeção a nível mundial, nem a liberdade natural para a manifestação da mais profunda religiosidade que o local e a veneração da Virgem, merece. Cá está mais uma evidência do sério entrave oficial à religiosidade livre, ao contrário do que se propala para fora. É um local recolhido, de silêncio, num monte muito arborizado e discreto. Tivemos o privilégio de poder aqui celebrar a Eucaristia, pela segunda vez na nossa viagem. Nos outros dias, pelos motivos que se podem inferir, não foi possível fazer mais celebrações. Os três sacerdotes da comitiva, (Pe. Armindo, Pe. Johnny e Pe. Betino) prepararam, num guião, um roteiro de oração diário que fizemos nos percursos de autocarro nas distâncias mais longas.
Fomos de seguida para a imponente cidade de Éfeso, tão importante no princípio da Cristandade. Era um dos mais importantes portos. Agora, o mar recuou uns quilómetros e, água, não se enxerga. Mas a vitalidade desta cidade imagina-se, perante a sua grandiosidade no que ainda resta para se ver. Uma imponente biblioteca, ruas sumptuosas, espaços públicos requintados, latrinas públicas muito bem conservadas, Odéon, Templo de Adriano, Casa do Amor, Ágora, Teatro. Um museu interativo colocou os nossos sentidos no centro do turbilhão da cidade de outrora, experiência impressionante e quase avassaladora.
Ainda tempo para visitar um centro de produção de couros finos, realmente bons e bonitos, que fornece em pele de carneiro, ultrafina, as maiores e mais famosas marcas de alta-costura do mundo.
No penúltimo dia da jornada, e em que não percebi que alguém tenha dado sequer o mais ténue sinal de cansaço, saímos para Bursa, que foi a primeira capital do Império Otomano. Aí visitámos a Mesquita Verde e atrás, o faustoso mausoléu do seu fundador. A mesquita é muito bonita.
Já estávamos muito habituados a mesquitas, ao número de minaretes delas pela sua importância, às chamadas 5 vezes por dia para a oração, desde a madrugada até altas horas da noite.
Visitámos o Mercado da Seda, com uma arquitetura antiga e bonita, e que cria um ambiente muito intimista dentro e nas proximidades, com árvores, bancos e muitos idosos por ali.
Rumámos de novo a Istambul, neste percurso circular por quase metade da Turquia moderna, entrámos da Ásia para a Europa por outra das novas pontes e, estupefação, em dia de trabalho, hora de ponta, numa cidade com 20 milhões de habitantes, chegámos rápidos, sem congestionamentos, sem grandes filas e sem nenhuma confusão. Parece-me que temos muito que aprender.
A Turquia é de facto um país moderno, potente, ocidentalizado, organizado. Não me admira que não tenham pressa em fazer parte da União Europeia. É caso para dizer que, se não estão mais à frente, lá estarão possivelmente dentro em breve. Parece-me mesmo que, manter assim as coisas, com acordos e convenções, talvez seja melhor para a Turquia e melhor para a EU. Precisamos, naquele ponto da geografia do mundo, de alguém que possa intermediar sempre a tensão de culturas que se sente naquele ponto, para um lado e outro do mundo. Essa tensão histórica que ali pressiona e se plasma em guerras, interesses e incompreensões, tem a Turquia como contentor, para refugiados, ideologias e geoestratégia. A Turquia mantém argumentos para os dois lados: é um país Muçulmano, não tem petróleo, estratégico, pertence à NATO, mas mantém-se equidistante. Consegue dialogar com um lado e o outro. É uma potência agrícola, quase industrial e turística.
Que se mantenha assim no seu posicionamento geoestratégico. Que se abra à liberdade religiosa. Que continue num processo de crescimento sustentável.
Depois de chegarmos de novo à casa de chegada, como quem volta ao já conhecido, à espécie de família distante, despedimo-nos da última noite na Turquia, em tranquilidade. Após o abundante e variado pequeno-almoço do costume, iniciámos o regresso. Felizes, satisfeitos, mas creio que não cansados.
Nesta jornada, registámos algumas inovações que vale a pena exibir. O grupo de navegantes cresceu. A viagem teve uma parceria estratégica no planeamento: à UASP, que aumentou o seu número de navegantes, juntou-se a Consolata, que teve um papel fundamental também na sua concretização. E só podemos concluir que a operação elevou muito o seu nível, pela forma como a agência que nos apoiou, realizou o seu trabalho (com a vantagem de que a responsável, passou também a navegante).
Na última parte da viagem, foi-se efetuando uma espécie de avaliação prévia, e quem se quis manifestar, fê-lo no sentido que aqui aponto.
Os objetivos são coletivos, fazem parte do exímio planeamento que fazemos. Mas as expetativas são individuais, e o êxito do empreendimento realiza-se se os objetivos forem cumpridos, e as expetativas se transformarem em satisfação. Pareceu-me que atingimos um pleno nesta viagem. Gostaríamos de ter tido a oportunidade de viver mais intensamente a nossa dimensão de peregrinos, porque os locais por onde andámos foram tão importantes para a expansão dos princípios que sustentam a nossa Fé, mas compreendemos que as reservas subliminarmente impostas pelo sistema político vigente, não é totalmente compatível com a nossa expetativa nesta matéria. Não sei se podemos afirmar que não sentimos a liberdade religiosa para podermos expressar de forma natural aquilo em que acreditamos. Mas a compreensão deste ambiente permitiu o recato necessário para podermos apreender tudo o que pudemos e transformar uma dificuldade em oportunidade.
O grupo que aumentou, necessitou de uma apresentação inicial e, dentro em pouco, eramos “família” sem barreiras. A alegria e a energia estiveram sempre presentes em todos os momentos da navegação, sem distinção de idade ou limitação, não houve nenhum facto que tivesse nublado algum momento da extensa viagem (a não ser um dia de chuva que também não passou de ameaça). Nem sequer os dois momentos, quando um navegante declarou que tinha perdido os documentos e se gerou um pânico solidário, ou uma carteira esquecida num banco de jardim num local idílico junto a uma potente cascata onde almoçámos por outro navegante, mas logo de seguida se declarou rebate falso e ninguém mais se lembrou.
Lembramo-nos isso sim das histórias hilariantes que sempre acontecem e alimentam não só todo o resto da viagem como se relembram sempre nos anos seguintes. Houve mais, mas resumo esta duas:
– Estávamos na “nossa casa” na Capadócia; um bom hotel numa cidade pequena e simpática. Um excelente serviço de restaurante. Na mesa das sobremesas, entre uma grande variedade de frutas e doces, estava uma taça com uma mousse de chocolate de encher o olho. O Zé (nome genérico para não identificar o protagonista), pega na taça, vai para a mesa e senta-se. Colher em riste, mergulha a primeira dose do pitéu e, sofregamente, ato contínuo, introduz na sua bocarra o dito material. De repente, uma reação de tipo bomba, expande pelas vizinhanças o dito material, empurrado por uma tosse descontrolada. Erro de cálculo: é que a dita mousse de chocolate era uma taça de canela para polvilhar as sobremesas para quem quisesse. A aflição foi só dele, porque os parceiros à volta rebentaram foi numa tempestade imparável de gargalhadas, a que ele primeiro, achou pouca piada. Mas as gargalhadas continuaram a rebentar sempre que se citava a explicação do próprio, no dito momento da aflição. E ele definiu assim: meto a colher à boca, aquilo desfez-se em pó que entrou por todo o lado, “dei uma baforada que parecia um extintor” …
– E numa das paragens técnicas na autoestrada, onde o apoio, para além do combustível e restauração, tinha autênticos supermercados, num conceito para nós novo, havia uma banca no meio onde se começou a juntar gente, à volta de uns pequenos boiões de vidro, sem rótulo, cujo conteúdo eram uns cristais pequenos alongados, com cerca de um cm de comprimento, quase transparentes, como pequeninos cristais de quartzo. E o vendedor, como quem vende a antiga “banha da cobra”, demonstra a eficácia do produto. Coloca numa chávena água quente, e precipita um único cristal dentro da taça. Produz-se de imediato uma reação química profusa e desconhecida e ele pede para cheirar. Eu também fui cobaia do teste. Bem precisava porque estava afónico, com nariz entupido e tudo o que aliviasse era bem-vindo. Ao chegar o nariz perto (a uns 10 cm da mistela, entro-me narinas adentro um vapor que ato único, me precipitou de imediato para trás, como se fosse um verdadeiro “coice de mula”. O facto é que resultou de imediato. Toda agente testou e toda a gente confirmou o COICE. Preço da dita embalagem: 10 euros. Achei um disparate. E negociei com o homem que se levasse 3 pagaria 5 cada frasco. Acertámos por 6 €. Entretanto pelo novo preço, muitos interessados apareceram. E consegui negociar, entre o valor de venda e os que ele me ofereceu por ser intermediário, de facto trouxemos para um valor médio de 5 €. E viemos todos satisfeitos, com a cena que ali se desenvolveu, pelo preço a que conseguimos o produto e, não tendo marca, registámos ali mesmo o verdadeiro nome: COICE. O Ir. Joaquim passou a ser o protagonista do ensaio clínico do coice. E se desobstrui as vias respiratórias daquela maneira rápida (como um coice), e é eficaz, e ele ainda está bem vivo, então está aprovado, seja o que for que esteja na composição daquele poderoso elemento. Quanto ao preço… apesar da redução a metade, ainda tenho um feeling de que fui enganado!
No final de maio vamos fazer a avaliação da praxe, momento de reencontro e convívio. O Arrimal acolhe a sessão.
Luís Matias (ASDL)
1 de maio de 2026
