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Sexta-feira, Maio 01, 2026

AS PONTAS DA EUROPA (de Portugal à Turquia)

(Navegantes em busca da História, da civilização

 e dos grandes locais da “Nova Humanidade”)

 (Parte I)

Se houvesse aeroporto no Cabo da Roca, seria o pleno para o título que escolhemos. Por isso, com as ínfimas correções às coordenadas, lá nos apresentámos no mais próximo local de desembarque, com uma folgadíssima margem para as formalidades do embarque, o que nos levou a sair de Fátima (origem da jornada para a maioria dos navegantes), mais ou menos à hora do acordar nas capoeiras.

E logo ali, apesar da hora matina, três ingredientes incontornáveis: a alegria do reencontro para a maior parte de nós; a boa disposição pela expectativa que fomos criando, criando uma ansiedade positiva; e também a fecunda apreensão pelo desconhecido em que decidimos mergulhar aquando da decisão de cada um, em navegar.

No hall do aeroporto, juntámo-nos com os navegantes que iniciaram a viagem em outros locais. Complementámos os abraços, pusemos as nossas tradicionais fitas identificadoras nas bagagens (desta vez de cor laranja) e os 32 navegantes iniciaram as sempre dolorosas formalidades de embarque, desta vez com uma tranquilidade acrescida, dado que, a responsável da agência que nos apoiou, também viajou connosco como navegante. Ao alto, como já é tradição, uma espécie de bandeira identificadora convidando o grupo ao “Folow me”, a guitarra que já tocou em inúmeros aeroportos e nos locais mais imprevistos e inusitados (este ano, por decisão inapelável das correntes de ar, andou em companhia de voz off). E tudo decorreu para nós de forma tranquila, mas não sem um certo aperto no nosso mecanismo da compaixão, ao constatarmos presencialmente, aquilo que nos últimos tempos temos visto e ouvido nas notícias sobre profundo paradoxo que é o descontrolo nos mecanismos de controlo dos cidadãos de fora da Europa, nas entradas e saídas, para pessoas muitas delas vulneráveis. O que presenciámos, por si só, já é desumanidade.

O nosso Airbus A321 Neo saiu com quarenta minutos de atraso, justificados com “um problema técnico”. Alguns viajantes e, entre eles, também navegantes, começaram a torcer-se nas cadeiras. Mas afinal, o problema tinha só a ver com um pequeno descontrole no ar condicionado.

E a nossa, também, “peregrinação”, iniciou o seu caminho, que previa atravessar toda a Europa da ponta mais ocidental (Lisboa), à mais oriental (Istambul) para, depois, penetrarmos na Ásia (Ásia menor). E após as cerca de cinco horas de percurso real, aterrámos com mais duas horas de diferença, impostas pelos “fusos horários”, no aeroporto de Atatürk. Um aeroporto recente, enorme e muito cordial para os passageiros (que já conhecia em diversas passagens, sem nunca dele ter saído a não ser pelo ar). 

Saímos, e rapidamente percebemos a boa sorte que nos coube, pela organização exímia que desde o primeiro momento se foi revelando. Guia a falar um excelente português, muito dedicada e delicada, muito conhecedora de todos os temas: os turísticos, os da história e também os da peregrinação. Nesta última matéria, em concreto, estávamos de resto muito bem servidos, porque viajou connosco (como já havia acontecido a Israel e Sinai), o Pe. Johnny Freire, especialista em Sagrada Escritura.

E viajando na parte europeia da grande Istambul, chegámos à nossa primeira casa na Turquia, que haveria de ser também a última. O Hotel, ali pelo centro desta parte da cidade, era acolhedor e simpático. Parecia até à primeira vista, pequeno. Mas concluímos depois que tinha uma grande capacidade, a julgar pela enorme quantidade de grupos de turistas de muitas partes do mundo, que se encontravam no movimentado e excelente restaurante no último piso. Mesmo assim, não deixou de se impor como muito familiar.

E iniciámos um ritmo de vida quase estonteante, de atividades e de surpresas múltiplas. A alvorada, andava entre as cinco e as seis e meia. Despertar às sete foi tão escasso que não passou de um ou talvez dois dias. Mas ninguém se queixou, foi assumido como normal e até necessário.

Pessoalmente, confesso, fui muito surpreendido com este país. Cruzei esporadicamente com alguns turcos ao longo da vida, e mais com o que li sobre o país, não consegui sequer aproximar-me de uma intuição mental que permitisse um vislumbre, sequer próximo, do que aqui observei agora. E tive essa perceção desde o primeiro momento. Por isso, utilizando a minha cara de filósofo, segui à risca o método Socrático do conhecimento. O conhecimento começa numa espécie de humildade, conhecida como “Dúvida Socrática”, que vem na sequência do recado que a “Pitonisa de Delfos” lhe deixou de forma subliminar na frase “Conhece-te a ti mesmo”. E a “dúvida socrática” enuncia-se como: “Sei que nada Sei”. Este é o grande princípio para a caminhada da sabedoria. E o grande primeiro degrau é o “Espanto”. Quer dizer: para seres sábio, primeiro reconhece que não sabes. Parte do zero, da humildade, limpa os preconceitos; e aí ficas aberto à sabedoria. Depois, olha à tua volta e espanta-te. Deixa-te surpreender. Aí estás aberto ao conhecimento.

Tão certo! Tão verdade!

Assim me senti nestes dias. Vi, ouvi, senti, e confrontei os meus preconceitos com uma nova geografia; no mapa e no saber.

Exemplos do que afirmo?… pois… muitos…

Costumamos considerar que o pensamento ocidental (conhecido), começa na Grécia, pré-socrática, com Tales de Mileto. E andei eu a pensar metade da minha vida que, Mileto era uma cidade histórica situada na Grécia. Pois não. Mileto é aqui na Turquia. Nos séculos VII – VI AC, Mileto, no império grego, mas não na Grécia, era uma cidade com um importantíssimo porto de mar na Jónia, hoje província de Aydin (sudoeste da Turquia, agora distanciada do mar cerca de 8 Km).

Muitos dos locais históricos na primeira expansão do cristianismo, sobretudo descritos nos “Actos dos Apóstolos”, que eu pensava estarem espalhados apenas pela Palestina, Israel, Syria, Jordânia, etc., estão aqui mesmo na Turquia…. de facto, senti-me pequeno no meu conhecimento, confesso!

 Impressionaram-me outros factos de cuja dimensão não tinha consciência:

Desde logo, a imensidão do país, com 86 milhões de habitantes. A belíssima, estratégica e histórica cidade de Istambul com 20 milhões (antes Bizâncio – no império grego; Constantinopla – no império romano), único acesso marítimo ao Mar Negro pelo Estreito de Bósforo, que liga este mar ao mar de Marmara, e divide a cidade nos dois continentes (Europa e Ásia), hoje ligada por três enormes pontes modernas.

Impressionou-me a cordialidade do povo turco (originariamente vindo da Mongólia) mas hoje, completamente miscigenado. E também me impressionou a segurança, a beleza da paisagem, o desenvolvimento da indústria, a soberba e poderosa agricultura, a indústria do turismo, a indústria militar (é o segundo país da NATO, a seguir aos USA).

E impressionou-me sobretudo a História. O mundo noutros tempos era por ali abaixo… Nós sentimo-nos, a cada passo que demos, dentro da história. Da história do mundo; da história da História, dos impérios, da civilização, do pensamento; da história do Cristianismo…!

Cada passo no meio das ruínas de muitos séculos e milénios, cada acariciar das pedras que sustentaram civilizações, remetem-nos a tanta vida e vidas, perdidas e ganhas, que são o cimento e os fundamentos do que somos hoje, da nossa tecnologia, dos nossos genes, da nossa cultura, das nossas crenças.

O que senti quando pousei as mãos no poço de S. Paulo e olhei as ruínas da casa onde nasceu, em Tarso; ou a sensação da subida e depois estar nas ruínas do túmulo e do local do martírio do Apóstolo Filipe em Hierápolis – Pamukkale; sentir a dificuldade em encontrar uma igreja Cristã, no local em que o Cristianismo nasceu (porque o termo “Cristianismo” para quem seguia Cristo, terá nascido aqui); o ver em Tarso a Igreja de S. Paulo transformada apenas em Museu, assim como Santa Sofia em Istambul também transformada em mesquita museu; o entrar dentro das ruas de Éfeso, passear por elas como se fazia dois ou três milénios antes, imaginar a vida e o corrupio dessa cidade (como fomos emergidos no moderno e interativo museu do local, e de onde saímos para a realidade mesma da cidade muito bem preservada); ou a visita, muito controlada e reservada à catedral Católica de Izmir (Esmirna), rara no contexto religioso que pudemos observar e que só por sorte conseguimos visitar; ou o desaparecermos no estômago da terra, dentro de uma cidade subterrânea; ou ainda, tomarmos parte agora, num tempo muito mais remoto e difícil para os Cristãos, começado no século II mas desenvolvido nos séculos X e XI, no Vale de Göreme, onde encontrámos, e entrámos, em pequenas igrejas escavadas na rocha, os primeiros mosteiros, cerca de 30, algumas com pinturas muito bem preservadas (um vale silencioso, protegido, que era também um abrigo e refúgio); ou contemplar uma aldeia troglodita no vale de Uçhisar, próximo da soberba paisagem natural das célebres “chaminés de fada”…

Não consigo bem descrever… fica aqui nos sentidos, na memória, no meu deslumbramento e, só aí, consigo satisfazer um pouco do tal ESPANTO Socrático!

Já disse que a vida na Turquia foi muito intensa e preenchida. Fizemos de autocarro 3.200 Km (sensivelmente a distância de Lisboa a Varsóvia na Polónia). E circulámos apenas em menos de metade do país. Não andámos próximos das fronteiras do Irão e do Iraque, mas andámos não muito longe da Syria.

Nos dois primeiros dias detivemo-nos em visitas a Istambul. Cidade maravilhosa, cheia de história, sede de impérios, porta estreita do Mar Negro e a maior cidade turca. Visitámos os locais icónicos da cidade, com destaque especial para a Mesquita Azul, a Igreja de Santa Sofia e o Grande Bazar (mais de 4000 lojas em zona coberta). Fizemos um espetacular passeio de barco no estreito de Bósforo, de onde pudemos observar a imponência da cidade nas diversas gradações da história, da altitude ortométrica e do desenvolvimento. Saímos e chegámos ao “Corno de oiro, uma bacia e porto natural urbano do Bósforo, formado por um promontório que divide o aportamento urbano do imenso tráfego de longo curso do estreito. Observámos e tivemos explicação detalhada de cada pormenor nas margens, desde as intemporais casas de madeira que amenizavam a fúria dos persistentes terramotos que assolam a região, até aos palácios, clubes, bairros, escolas e universidades, com destaque para Fenerbahçe, um dos três grandes clubes de futebol de Istambul, que pertence e nasceu num complexo formativo, com escolas e universidade. Pudemos observar, a par de muralhas intemporais, modernos arranha céus, palácios, estilosas torres de comunicações, pontes e muitas, muitas, mesmo muitas mesquitas; para cada lado onde se olhe, sempre se veem três ou quatro mesquitas. Em Istambul, este número exponencia-se.

A Turquia é um país (pressupostamente) laico, mas onde 99% da população segue o Islão. E percebemos que o Estado, discretamente, mas de forma eficaz, acaba por controlar a população e a política através da religião. Aliás, os dirigentes das mesquitas são funcionários públicos.

A Turquia é um país novo. Tem apenas 108 anos de existência, nasceu do Império Otomano no final da primeira grande guerra mundial (1918). O artífice da Turquia moderna foi ATATÜRK (Mustafa Kemal Atatürk), admirado por todos turcos até hoje (Atatürk quer dizer Pai da Turquia). Homem de visão moderna, conseguiu unir os trucos para a modernidade. Tornou o estado laico, mudou a forma de escrita para alfabeto ocidental, proibiu a burka, modernizou e ocidentalizou o país. Fomos informados que, se encontrássemos na rua mulheres com indumentária mais clássica ao modo do islão, que não são mulheres turcas, mas oriundas de países árabes. Ele mudou a capital, anteriormente Istambul, para Ankara, uma aldeia mais no centro da Turquia, e fez dela uma cidade moderníssima, com gigantes arranha céus moderníssimos.

A Turquia é, ou está a caminho de ser um colosso de desenvolvimento. Autoestradas, estradas nacionais com pelo menos duas vias em cada sentido e separação central, com velocidade permitida de 140 nas autoestradas, 120 nas nacionais e 70 km/h nas localidades. Nos 3.200 Km percorridos em todos os tipos de cenários, não vimos um único acidente rodoviário (apesar de nos parecerem um pouco “baldas” na condução).

No terceiro dia entrámos em Ankara à noite e fiquei extasiado com a cidade. Não eram só prédios, era uma obra de arte. Uma arquitetura futurista toda iluminada como uma verdadeira obra de arte. Sete milhões de habitantes numa metrópole industrial, financeira e comercial. E também tem sítios pitorescos e tradicionais nas zonas do primeiro desenvolvimento da cidade.

Foi aqui que visitámos o estupendo “Museu das Civilizações de Anatólia”. Aqui, senti-me a entrar dentro dos meus manuais escolares do segundo ciclo nos idos anos 1970. Não sendo a história (de que gosto), o meu foco de estudo preferencial, lembro-me do fascínio que as fotos dos livros exerciam em mim, nas figuras romanas e gregas nos baixos-relevos, esculpidas em capiteis de colunas ou das estátuas. Imaginava o resto com a minha generosa e explosiva mente de criança. Aqui chegado, transportei-me a esse tempo com um considerável estrondo mental, que só eu senti: é que agora, essas fotografias (algumas delas), estavam aqui mesmo em “carne e osso” à minha frente. Toquei nas que pude. Eram reais, e eram as mesmas. Como pude guardar na memória (embora ainda tenha os livros), com tanto rigor e clareza estas imagens, para as reconhecer de imediato… percebem o que senti? Verdadeiramente menino! (Continua)

Luís Matias (ASDL)

1 de maio de 2026

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