A Assembleia Geral do Outono 2025, a 22 de Novembro do ano passado, realizou-se, em Calvão – Vagos, na Fraternidade dos Missionários Combonianos. Foi neste ambiente campestre, temperado com um cheirinho a maresia, que os nossos Irmãos Combonianos nos acolheram na sua Casa familiar, erguida à beira da estrada 103, e que o presidente da Direcção da LASE, Eduardo Pina, apresentou aos participantes o plano das “Jornadas Culturais de 2026”. Desde então e, depois, com o reforço da crónica do Luís Matias, publicada no site da UASP, que todos os caminhos, qual “Via Verde”, de 1 a 3 de Maio, foram dar a Vila Viçosa… O curador da Exposição sobre o nobre projecto da UASP, “Por Mares dantes Navegados”, totalmente vivido nas antigas colónias portuguesas de África e de Timor Lorosae, também, ali, a partilhou com os membros da Liga dos Antigos Seminaristas de Évora (LASE).
…. “Se fores ao Alentejo,
Ai, ai, ai, ai,
Não esqueças de dar um beijo,
Ai, ai, ai,ai…. “.
Assim cantou, com voz firme e melodiosa, o Senhor Arcebispo da Arquidiocese de Évora, Dom Francisco Senra Coelho, logo acompanhado, no refrão, por um coro afinado e espontâneo, quando de nós se despediu, ao fim do almoço de domingo, dia da Mãe, e que, apressadamente, ia retomar a visita Pastoral àquela região alentejana. Durante a refeição ouvimos de Dom Francisco….” que o Alentejo está a mudar….” Constatámos a mudança, religiosa e política, na Eucaristia dominical com a Igreja cheia de fiéis e no contacto com os autarcas locais. Assim foi, nas últimas eleições legislativas e autárquicas!…..
Já leram, certamente, a excelente crónica do Luís Matias que relata minuciosamente, passo a passo, dia a dia, o desenvolvimento do maravilhoso programa oferecido pelos promotores da LASE. Assim sendo, não esperem, os potenciais leitores, um texto semelhante, porque não lhe acrescentaria quaisquer mais valias. Permitam-me, então, que me socorra da história que percorre a beleza e a riqueza da” Princesa Alentejana”, Vila Viçosa.
Consta que, em 1580, Luís de Camões, o nosso maior Poeta lírico e épico, terá exclamado amarguradamente: “….morro com a Pátria”. Assim aconteceu! Portugal perdia a independência para os “Filipes” de Espanha. Nesse tempo, como agora, o governo espanhol, para sustentar a guerra, impôs o agravamento da carga fiscal. O povo reagiu violentamente à subida dos impostos. E as convulsões mais graves deram-se em Évora, em 1637. Dizem os historiadores que a reacção popular também foi contra a nobreza. A partir de Évora propagou-se a todo o Alentejo e ao Algarve. Em Vila Viçosa apedrejaram o palácio do Duque de Bragança. A burguesia aliou-se ao movimento popular. As perturbações sociais acalmaram, dando tempo a que chegassem duas colunas militares espanholas e os cabecilhas foram enforcados. Com a revolta da Catalunha, o governo de Madrid ordenou a mobilização dos nobres portugueses. Consequentemente, um pequeno número de membros da nobreza e de letrados começou a conspirar para se livrarem do jugo castelhano. Como sabem as gerações de antanho, desde a nossa 4ª classe, um dos mais activos foi João Pinto Ribeiro, de origem burguesa, mas bem aceite pelos nobres, e, igualmente, bem relacionado com o Duque de Bragança. Os conspiradores decidiram restaurar a linha legítima da sucessão ao trono que tinha sido preterida, em 1580, com a sucessão de Filipe II de Espanha. O direito à coroa pertencia a D. Catarina, Duquesa de Bragança. Ora, o herdeiro de Dona Catarina era o seu neto D. João, Duque de Bragança, que vivia em Vila Viçosa. Afastado da vida política de Lisboa era considerado, em Madrid, uma pessoa de confiança. Ao convite dos conjurados para chefiar a revolução em marcha, Dom João ainda hesitou! Mas, de imediato, o colocaram “entre a espada e a parede”: …”ou a Monarquia com ele ou uma República de nobres”! Acedeu, “empurrado”, também, pela coragem e a forte vontade da sua amada esposa, Dona Luísa de Gusmão, que terá dito. “….mais vale ser Rainha uma hora que duquesa toda a vida…”! E, no primeiro dia de Dezembro de 1640, rebentou o golpe. Eliminaram o Secretário de Estado, Miguel Vasconcelos. Só mais tarde, para consolidarem a revolução, pediram a intervenção do povo e todo o País aderiu. Passados 15 dias, Dom João IV foi aclamado Rei de Portugal. Em 1646 consagrou a Nossa Senhora da Conceição o Reino de Portugal, proclamando-a Rainha e Padroeira da Nação no Santuário, situado na cerca amuralhada do Castelo.
Foi há 75 anos, mas recordo bem que no meu exame da 4ª classe, durante a prova oral, uma professora da mesa do júri me perguntou “de que rei gostaria de falar”. Não hesitei, de Dom João IV! Nesse tempo longínquo sonhava lá eu que, sete décadas e meia passadas, ia encontrar o Monarca, representado numa escultura equestre, no centro do “Terreiro do Paço”, em Vila Viçosa, montando, com elegância, o seu cavalo olímpico!… Deste centro estratégico, vigia e domina todo o espaço envolvente, ocupado por edifícios históricos e monumentais. Foi assim que pude adormecer tranquilo o “sono dos justos”, durante duas noites, no antigo Convento das Chagas de Cristo, do século XVI, das Irmãs Clarissas, agora, ”Pousada – Convento – Dom João”. Apesar de correr, entre o povo, que nos amplos corredores, salas e quartos, vagueia o “fantasma” de Dom Jaime, conforme nos contou o Dr. Francisco Caeiro, escritor e historiador, na sua brilhante palestra, não tive pesadelos nocturnos, nem sinais de assombração!… Convento que chegou a acolher 90 clarissas, o segundo Ramo Franciscano da Ordem dos Frades Menores (OFM). Com a extinção das Ordens Religiosas a última irmã, ali residente, data de 1905.
Concluo, afirmando que em Vila Viçosa há beleza e riqueza. Na economia, é pujante, sobretudo, nas exportações de mármore. Culturalmente, é o berço da grande poetisa, Florbela Espanca, nascida em 8 de Novembro de 1894, dá o nome ao Cine Teatro local. Saliento, também, a organização do processo de candidatura a “Património Mundial da Humanidade”, brevemente apresentado à UNESCO. Processo preparado com elevada competência pelo Presidente da Câmara Municipal, Inácio Esperança, e Vice-Presidente e vereador da Cultura, Dr. Tiago Salgueiro, historiador e excelente comunicador.
Os seus belos e grandiosos monumentos ilustram o poder da Dinastia de Bragança que, indubitavelmente, desempenhou um papel relevante no desenvolvimento presente e futuro da vila, “Princesa do Alentejo”…
Alfredo Monteiro (AAAFranciscanos)
