(Não é só antiga, tem história a perder de vista)
“Cada terra seu uso, cada roca seu fuso”. O aforisma popular parece simples, mas encerra em si uma enorme diversidade e riqueza. É assim Vila Viçosa.
A UASP – União das Associações dos Antigos Alunos dos Seminários Portugueses tem no seu plano anual, entre outras grandes e valiosas atividades, uma, chamada, “Jornadas Culturais”. E apesar de ser realizada apenas num fim de semana (de sexta a domingo), já só a posso classificar entre as “grandes e valiosas atividades”, porque a sua realização ao longo dos anos tem sido de uma riqueza e de uma diversidade, por um lado, surpreendente, por outro inexcedível em cada edição. Quem não participa, nunca poderá avaliar o que perde.
O formato de execução da atividade, para a UASP é, sempre, simplificada, porque atribui em cada ano o seu planeamento e organização a uma das associadas, ao longo do país, o que a enriquece profundamente e a diversifica de uma forma absolutamente incrível.
Neste ano, a organização esteve a cargo da LASE – Liga dos Antigos Seminaristas de Évora, e realizou-se em Vila Viçosa. É a segunda vez que a LASE organiza as Jornadas, na primeira vez na fantástica “Alqueva”.
E começo já por confessar um gravíssimo pecado da minha pessoa, atendendo a que nele sou reincidente, prometendo, como penitência, nunca mais o cometer. (É que já no ano passado, nas “Jornadas” de Aveiro, inscrevi-me, mas com a convicção de que pouco iria aproveitar, dado que conhecia bem Aveiro – pensava eu. No final, sem dizer a ninguém, corei de vergonha por tamanho pecado; não só percebi que não conhecia Aveiro, como fiquei com a noção clara do que, mesmo depois daquela enorme revelação de um potentado de história, paisagem e riqueza humana, tenho ainda por descobrir).
Por isso confesso que, também agora, Vila Viçosa, que eu, até há cerca de um mês atrás não conhecia, me soou eventualmente pobre no que respeita ao conteúdo necessário para suportar uma atividade deste teor, garantindo interesse para uma agenda recheada. Como estava enganado, estrondosamente enganado.
As interrogações quase preconceituosas assaltavam-me: Como se preenche uma atividade de quase 3 dias numa povoação lá no interior do Alentejo, com apenas 4 100 habitantes, sede de município com apenas 4 freguesias e cerca de 7 300 almas?
A programação esteve, então, a cargo da LASE e, sobretudo, da inexcedível dedicação do Eduardo Pina, seu presidente, que fez um roteiro absolutamente incrível, rico e diverso, e fez com que ele se cumprisse ao milímetro num ambiente verdadeiramente tranquilo. A surpresa foi completamente inusitada. A vila é de uma beleza inexplicável para aquele lugar de Portugal. A magnitude, imponência e beleza da grande praça, com nome a despicar com a capital “O Terreiro do Paço”, deixa perceber que, a partir daqui tudo é possível. E é.
O Terreiro do Paço é um enorme quadrado ligeiramente declivado de poente para nascente, encimado em toda a linha pelo “Palácio dos Duques”, com uma monumental fachada de 3 níveis, cada um deles exibindo características arquitetónicas diversas de 3 períodos clássicos. Do lado direito, um muro alto cortado por janelas espaçadas, que assegura a privacidade dos jardins do palácio e da sua igreja, prolongando-se depois pela rua que passa no fundo da praça. Do lado esquerdo, o Convento das Chagas e a sua igreja que é panteão das duquesas, e cuja ponta mais cimeira foi seminário menor, hoje funcionando como pousada histórica. O fundo da praça, na parte oposta ao palácio, é todo ele preenchido com o antigo “Convento dos Agostinhos”, hoje propriedade da Arquidiocese de Évora, onde funcionou o Seminário Menor, com exceção da “Igreja dos Agostinhos”, com duas torres, na parte sul da fachada do seminário, propriedade ainda da Fundação “Casa de Bragança”, porque é o panteão da família de Bragança. No centro do Terreiro do Paço, uma grande estátua de D. João IV a cavalo.
E uma particularidade incrível em todo o entorno: todo o sítio para onde se olha existe pedra, é mármore. Só mármore. Nas fachadas, nas soleiras e umbrais, colunas, candeeiros de iluminação pública, nos lancis dos passeios, a própria calçada. Impressionante; luxuoso! E é assim em toda a vila; fora e dentro dos edifícios.
A poucos metros dali, para sul, encontramos o castelo com a sua cidadela ainda pejada de vida, até porque ali se encontra uma fantástica igreja histórica, com um grande significado para Portugal e para a religiosidade e para a igreja portuguesa: ali, D. João IV coroou Nossa Senhora da Conceição a Rainha de Portugal, sendo, por isso, a padroeira de Portugal. A partir desse momento, nunca mais os reis portugueses usaram a coroa, até ao fim da monarquia. Nos retratos, podiam apresenta-la ao lado pousada, ou debaixo do braço, mas jamais na sua cabeça, como sinal de humildade e subserviência àquela que era a verdadeira rainha: Nossa Senhora da Conceição.
Todo o aglomerado do povoado, tipicamente alentejano, pede que se calcorreie, e em cada rua, para além de igrejas, vamos encontrando múltiplos pontos de interesse em pormenores de arquitetura, nos inúmeros museus…
Na sexta-feira depois do acolhimento, no seminário, antigo convento agostinho, agora modernizado e transformado em casa de acolhimento, e em residência de uma comunidade da jovem e promissora congregação “Sementes do Verbo”, que fazem funcionar a casa, jantámos e participámos numa sessão de boas vindas, onde o presidente da LASE e anfitrião, Eduardo Pina, saudou os que decidiram fazer estas jornadas culturais. E proporcionou-nos neste momento intimista, uma excelente e animada palestra sobre a história de Vila Viçosa, proferida pelo jovem e eclético escritor “Calipolense” Dr. Francisco Caeiro. Logo aqui se percebeu claramente a riqueza do que se iria seguir nos próximos dias.
Os habitantes de Vila Viçosa são “Calipolenses”. Surpreendeu-me (e no princípio até confundi com os de Leiria que são “Coliponenses”). Afinal, a história aqui vem de mais longe e maior nobreza, vem da República de Platão. A obra central deste filósofo grego do Seculo V – A.C., propõe uma organização e um sistema político para uma cidade imaginária, chamada “CALIPOLIS” (Kallipolis), que significa “cidade bela”.
A ilustrar esta bela palestra, dois apontamentos (que anunciaram de violino, mas, de facto, foram de viola de arco. Belo som), com peças conhecidas executadas a solo por um Irmão, consagrado, da comunidade Sementes do Verbo.
O sábado, depois do pequeno-almoço, iniciou-se com o ajuntamento na entrada do Seminário (ao fundo do Terreiro do Paço) para subir a um autocarro cedido pela Câmara Municipal, cujo Presidente, Inácio Esperança, faz parte da LASE e colocou à disposição destas jornadas, todas as facilidades, jornadas em que ele próprio se fez presente na maior parte o tempo. E percorremos a curta distância dali até ao Cineteatro Florbela Espanca, filha dileta e saudosa desta terra.
Ali, esperava-nos o Dr. Tiago Salgueiro, historiador muito credenciado, que é vice-presidente do município e vereador da cultura, que tem em mãos, entre muitas outras coisas, a liderança do processo de elevação de Vila Viçosa a Património da Humanidade, pela UNESCO. Informou-nos sobre o percurso do processo, o seu estado e, sobretudo, dos fundamentos que justificam e suportam tal iniciativa. E não há dúvida, são mais que muitos. Veremos seguramente este manancial de história e património, ser reconhecido “património da humanidade”.
Um momento de questões colocadas, levaram à frente o Presidente da Câmara que estava discretamente entre nós na assembleia, e de forma sucinta e clara, elucidou-nos sobre as ideias mestras que norteiam o município em todas as dimensões, e como pensam fazê-lo. Surpreendeu-nos a acção e a clareza da rota que têm definida para o progresso deste pequeno oásis alentejano.
Depois, seguimos para o Museu da Farmácia. Outra mostra inesperada. O maior e melhor museu sobre o tema na Península Ibérica. Pertença de um particular, autêntico cientista e investigador que por mais de 3 décadas no início do século XX marcou a diferença na organização, métodos e evolução da ciência farmacêutica: António Victor do Monte. Belo museu, completo, exibindo todos os pormenores do “estado da coisa”, mas também, de forma muito marcada, as suas criações e invenções que muito melhoraram o fazer da arte.
Em seguida, visita central: o Palácio Ducal. Verdadeira obra de arte, em tudo o que ali se encontra, albergue e alfobre de reis, pensado ao ínfimo pormenor por eles mesmos. A construção deve-se a D. Jaime, da Casa de Bragança, mas foi sendo aumentado e melhorado, e não deixou de ser sempre um regaço de acolhimento original, mesmo depois de a dinastia de Bragança ter subido ao trono por D. João IV, e até ao último Rei, D. Manuel II, ser exilado. Seu pai, D. Carlos, frequentava o palácio com assiduidade, ali colhia inspiração artística, e, saído dali, foi assassinado em Lisboa, no outro “Terreiro do Paço”, juntamente com o príncipe Luís Filipe.
O almoço, no restaurante da corporação de bombeiros, retemperou forças para uma tarde de visita ao museu do mármore, prenúncio técnico e pedagógico para entender na prática o que vimos em uma exploração daquele nobre e precioso material, o mármore, uma das muitas nas redondezas; portentoso colosso de perfuração, com mais de 150 metros de profundidade, num manancial lito-geológico que envolve grande parte do nosso planeta.
No final da tarde, a celebração da Eucaristia na igreja de S. Bartolomeu (ou igreja de S. João Baptista, ou igreja dos Jesuítas), edificada no cimo da Praça da República (praça que tem o dedo de Duarte Pacheco, como a requalificação urbana de Vila Viçosa), à qual se seguiu o jantar no Seminário. E a finalizar o dia, um soberbo concerto de guitarra clássica no teatro de Florbela Espanca, por dois guitarristas de Évora.
No Domingo fomos visitar o Museu de Arte Sacra, ali próximo, numa transversal típica da vila. Instalado numa igreja barroca, constituiu outra agradável surpresa: um espaço excelente, muito bem arranjado e modernizado, com um espantoso e diversificado espólio.
Dali, saímos a pé para o castelo e cidadela, onde entrámos na Igreja de Nossa Senhora Conceição, onde, acto histórico nacional relevante, se deu a coroação da padroeira de Portugal. Participámos na Eucaristia dominical, presidida pelo Senhor Arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, no dia da Mãe. Da fluente, concisa e muito interessante homilia, para além da explicação sobre o principal da liturgia do dia, foi relevado o papel insubstituível e nobre das mães. Foram cumprimentados efusivamente os antigos seminaristas ali presentes, da UASP e da LASE, e relevado o seu percurso na sociedade, e a sua formação e dito sobre a responsabilidade que têm na igreja e no mundo contemporâneo. No final da celebração, voltou a agradecer a nossa presença e quis fazer uma fotografia com todo o grupo, o que aconteceu frente ao altar. E foi almoçar connosco no Seminário.
Depois do almoço, as despedidas, os abraços e o sempre até breve. O Museu do Estanho estava ainda no cardápio de visitas, mas a escassez de tempo relegou para visitas individuais, para quem o pretendeu fazer.
Grandes Jornadas Culturais da UASP, mais uma vez, agora com a preciosa assinatura da LASE. Os agradecimentos são sempre poucos a quem tornou possível este empreendimento e por isso, todos, sem exceção, se sintam envolvidos nesta palavra de gratidão. Mas não poderíamos deixar de mencionar todos os já nomeados neste texto, especificamente o grande artífice deste êxito, o Eduardo Pina (e da sua esposa), bem como o Senhor Presidente da Câmara Municipal e o vereador da cultura e, finalmente, o Senhor Arcebispo de Évora que, no meio de uma Visita Pastoral, relevou de sobremaneira este momento que arranjou tempo para nos manifestar a sua adesão e envolvimento, e nos dirigiu palavras de estímulo que também nos responsabilizam.
Luís Matias (UASP)
8/Maio/2026
