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Quinta-feira, Julho 29, 2021

As bolachas do casamento

Na Gândara (Figueira da Foz) dos anos cinquenta, casar era um ‘rito de passagem’ da maior importância comunitária que, finalmente, conferia ao ‘rapaz’ o pleno estatuto de ‘homem’!

Normalmente combinado durante uma ceia, para o efeito ajustada em casa de um dos casais de ‘parceiros’, o casamento era marcado – com cerca de um ano de antecedência – para um sábado dos meses de inverno.

Em tal época, todas as colheitas estavam feitas, engordado o carneiro que cada uma das famílias tinha comprado para o grande dia e, considere-se, os dias eram mais pequenos, o que ocasionava menor despesa com comida e bebida para os convidados…

Assim, fixada a data do casamento, era tempo de ‘pôr os papéis a correr’, isto é, cumprir as burocracias do registo civil, se não se tivesse combinado pedir ao padre para tratar de toda a ‘papelada’. Neste caso, era o Senhor Prior – como então se tratavam na terra os sacerdotes e muito particularmente os párocos – que tratava da documentação, o que aliás era o mais corrente, e acionava os ‘proclamas’.

Proclamas eram os ‘banhos’, ou, mais corrente na zona os ‘pregões’, ou seja o anúncio do casamento, lido na igreja, em domingos sucessivos pelo pároco na missa dominical, para dar oportunidade a que fosse denunciado eventual impedimento da realização do matrimónio.

No decurso deste processo – não havendo então lugar ao que hoje se designa por CPM-Curso de Preparação para o Matrimónio – só, eventualmente, o padre poderia falar com os nubentes. No entanto, era necessária a sua presença nas vésperas do ato solene para confissão e comunhão.

Cada um dos noivos – melhor, dos seus progenitores – cuidava da respetiva indumentária do casamento. A noiva envergava um vestido bege ou verde, nunca branco, e echarpe, neste caso branca ou preta – que nesse tempo ainda se impunha às mulheres para entrarem na igreja – em alternativa ao lenço de cabeça e xaile. Quanto ao noivo, além de fato e chapéu, ambos do modo comum à época, envergava um sobretudo ou samarra, sempre de cor castanha em qualquer dos casos.

A cerimónia – que normalmente não ocorria durante a missa – não precisava de esperar pela noiva. Realmente, todos os participantes, indo a pé, chegavam juntos à igreja, porquanto o noivo e seus convidados tinham ido ‘buscar a noiva’, a casa dela, com os respetivos acompanhantes.

Terminado o casamento – não havendo ainda então lugar a essa maçada das fotografias – cada grupo de convidados seguia para o banquete da casa do nubente que o convidara. Mas, pela tarde, os convidados da noiva retribuíam a visita ao noivo, comendo e bebendo nestoutro banquete. A ceia processava-se também em separado, ficando os noivos com os respetivos convidados e nunca dormindo juntos na primeira noite!

Os homens convidados do casamento, mesmo que não fumassem, andavam providos de cigarros – durante os dois dias do casamento e pela semana seguinte – para oferecer aos amigos e conhecidos que não participavam na festa. Quanto às mulheres, traziam bolsas de tecido com bolachas, também para oferecer aos que ‘não eram’ do casamento. Demais, no regresso da igreja, na volta do casamento ou da missa do domingo seguinte, os ranchos dos convidados eram surpreendidos nos caminhos por ‘mesadas’, ou seja, mesas – solitárias, sem ninguém à vista a guardá-las – providas de doces e vinho de que os convidados do casamento se serviam. Nos pratos, estes viriam a deixar bolachas, cigarros e, eventualmente, algumas moedas.

O casamento obrigava, assim, à realização de dois banquetes paralelos, um em casa dos pais da noiva, o outro em casa dos sogros.

Normalmente com cerca de um ano de antecedência, cada casal de ‘parceiros’ era o único responsável pelos convites da sua parte. Os convidados – em cuja seleção os noivos não eram, pois, determinantes ou sequer por vezes consultados, e que se restringiam praticamente à família alargada e a um ou outro amigo – tinham, assim, tempo para providenciar a ‘roupa nova’ que tão importante cerimónia exigia.

Por outro lado, a preparação e confeção da boda era entregue, em cada uma das casas, à responsabilidade de uma cozinheira, contratada com meses de antecedência, dada a concorrência de idênticos eventos nos ‘meses dos casamentos’. Era a cozinheira – que chegava com um ou dois dias de antecedência para a preparação dos doces – quem, já antes, determinara os artigos a adquirir bem como as respetivas quantidades, em função do número de convidados.

Os pratos não variavam muito de boda para boda: a diferença fazia-a a cozinheira que estava sempre à prova, jogando, em cada caso, a eventualidade de vir a ser ‘falada’ para outras bodas. Tal como a carne de vaca, em princípio o peixe era interdito nestes banquetes salvo, ocasionalmente, o bacalhau.

As ementas constavam normalmente das seguintes iguarias: – Sopa, de feijão branco e hortaliça; Carneiro, guisado em panela de ferro com batatas; Carneiro, assado no forno de lenha; Galinha, assada inteira na ‘pingadeira’ em forno de lenha; Doces variados; Alguma fruta – maçãs, castanhas assadas…

E vinho, trazido em barril, muito vinho que casamento é festa!

Elias Quadros, AAASDCoimbra

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