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Segunda-feira, Maio 17, 2021

Gloria in excelsis Deo!


Vá de música, Menino,
Fazei-me vós o compasso,
Por que de vossos preceitos,
Não saiam nunca meus passos
(…)
Também serão nesta solfa
Os semibreves ligados,
Pois, hoje, o ser mais indigno
Ligais ao mais soberano.
(Sóror Violante do Céu, 1601-1693)

Dia de Natal.

Uns acordam cedo que os sinos da igreja assim o mandam. Outros acordam tarde, à hora do almoço, esquecidos ou já não afeitos à celebração eucarística.

Dia de Natal, às vezes, é um dia aborrecido, sem nada para se fazer, apenas para comer, durante a tarde, o que ainda ficou do anterior ou que essa mesma tarde merece. O Natal na cidade pode ser um dia de silêncio. Uns veem televisão, outros ocupam-se como sempre, com os telemóveis, os ‘tabletes’. Sair? Para onde? Os cafés estão quase todos fechados. Alguns abrem, durante a tarde. O D. Broas é um deles. Arranjar um lugarzito, nem sempre é fácil. A solução é esperar, deixar cansar o tempo. Nem todos ficarão a fazer sala. E depois se chove… nem passear de carro apetece. Então pensamos numa alternativa que nos tire de casa. E se visitássemos… Visitar os pais, os sogros, os avós, se não foram visita na noite anterior, uns tios, os padrinhos ou então uns amigos se estes não tiverem saído de casa pelas mesmas razões. O melhor é telefonar.

Estes dias de Natal lembram-me Nogueira, nos anos em que lá vivi. Não penso no acordar estremunhado, nas prendas, quando as  havia, nem  na auréola  com que as horas se vestiam no amanhecer, aquecidas ou não pelos  raios solares, houvesse ou não um nevoeiro irritante, caísse ou não uma chuva impertinente ou o clarear do dia mostrasse os campos e os telhados pintados com a brancura de uma geada fresquinha, obrigando a um combate com fortes agasalhos, como resposta. Não penso nos sorrisos, que eram cumprimentos de cada um,  quando  pronunciavam um simples mas  caloroso «boas-festas».

Do que me lembro é da missa de Natal, em latim, a que todos estávamos habituados.  Ainda me soa o toque  das requintas, dos saxofones, das trompas, etc., como se ali estivessem anjos em vez de músicos da banda a tocar e a cantar Kyrie eleison,  Christe eleison; Kyrie eleison. E então quando  se chegava ao Glória in excelsis Deo, in terra pax hominibus bonae voluntatis. Laudamus te, benedicimus te, adoramus te, glorificamus te, gratias agimus tibi propter magnam gloriam tuam, Domine Deus, Rex caelestis, Deus Pater omnipotens (Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens de boa vontade. Louvamos-Te, bendizemos-Te, adoramos-Te, glorificamos-Te, por Tua graça agimos devido a Tua glória imensa, Senhor Deus, Rei celestial, Deus-Pai Todo Poderoso). Parecia que havia ali uma aura de magia, um bocado do paraíso, tão arrebatadoras eram as sonoridades e as palavras daquele latim meio engrolado a sair de gargantas poderosas, a entoar por toda a nave e capela-mor apinhada de fiéis. Missa igual àquela só a do Ano Novo e  a da festa de Santa Bárbara, em Agosto.

De Vila Real, mais perto que Nogueira fica Constantim. É aí que passo, normalmente, o Natal, com mesa recheada, que a minha irmã se presa em ter, e à lareira, que o meu cunhado tem sempre em fogo vivo.

Na Consoada, junto ao fontanário na Rua do Fundo da Rua/Rua de S. Gonçalo, onde arde o madeiro, dezenas de pessoas se juntam, mantendo a tradição, para continuarem a noite, comendo e brindando à saúde de todos e de cada um. Histórias, comentários, chistes e anedotas saltitam  de boca em boca, como centelhas que rebentam do brasume,  dando  colorido ao correr dos minutos numa «conversa arbórea» como o embaixador Seixas da Costa, recentemente em crónica jornalística,  apelidou  este tipo de «nunca te calas», que o mesmo é dizer que as “palavras são como as cerejas”.

No dia 25, à tarde, ainda há brasas a exalar  os seus últimos instantes de vida, a sorrir, como a dizer: Glória in excelsis Deo.

Ribeiro Aires, AAASVReal

 

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