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Quarta-feira, Maio 29, 2024

IV – NA TERRA DA BOA GENTE – INHAMBANE (Parte 1)

POR MARES DANTES NAVEGADOS
6ª EDIÇÃO – MOÇAMBIQUE

IV – NA TERRA DA BOA GENTE – INHAMBANE
(Também é lugar de mártires)

Parte 1

Às 6h30 da manhã o despertador iniciou suavemente uma trilha sonora que encaixava na “mouche” do canto alegre dos pássaros do exterior, e que preenchiam todo o ar numa envolvente de 360 graus. Dentro do quarto, esse som total, entrava por dois buracos redondos que atravessam a parede apenas a uns 10 cm do tecto, pormenores importantes da arquitectura africana, para garantirem a ventilação, mas que fizeram parte da inspecção detalhada, na primeira noite, para me certificar se não seriam uma fronteira franca de passagem do “Anopheles”, o mosquito da malária, mas a rede lá instalada passou na auditoria.

À celebração matinal na simpática capela da Casa, segue-se o já descrito pequeno almoço, e pés na estrada, a caminho de mais uma etapa da viagem missionária que nos propusemos fazer. A expectativa era grande! Guiùa, em Inhambane, era o objectivo, mas para lá chegar, haveríamos de vencer a insignificante distância de uns 500 Km pelo que, cerca das oito e meia da manhã, iniciámos um dos mais lindos percursos no que à delícia da paisagem diz respeito. Dizer já que esta movimentada estrada pelo litoral, Estrada Nacional nº 1, é uma via boa, bem asfaltada, e também muito bem guardada pelas autoridades. Polícia (com o exagero metafórico), quilómetro sim, quilómetro não. Não sei se não lhe chamaria uma verdadeira praga. Quem tiver de fazer o percurso cumprindo horário, junte pelo menos mais um par de horas ao plano, para esbater em paragens de controlo policial. É um exagero. E claro que, aqui, o caché não é maioritariamente para o erário público; é antes bem negociado para redistribuição entre bolsos esquerdos e direitos…

Mais uma vez, nos subúrbios urbanos, mediavam os bairros pobres onde tudo se negoceia à beira da estrada, com grandes e modernas instalações industriais. E a paisagem vai dando lugar a grandes zonas de aluvião pelos rios que aqui desaguam, povoações de alguma dimensão, e inicia-se uma luxuriante paisagem tropical, que não mais nos abandonaria no acima de meio milhar de quilómetros do nosso percurso. Aqui e ali enxergávamos o Índico ao fundo. Bem se vê o que era no tempo colonial, e mantém-se, uma das rotas principais de Moçambique, e os vestígios da arquitectura e das construções coloniais, eram uma constante ao longo de todo o percurso; umas em ruínas, outras ainda muito bem preservadas. Muitas, muitas árvores de frutos tropicais em toda a extensão, quer nas áreas cultivadas, quer nas bravias, e mesmo nas praças e espaços públicos das povoações: coqueiros carregadíssimos, bananeiras, mangueiras, papaias/mamão, palmeiras, cajueiros e um número sem fim de outras espécies tropicais. Isso faz um contínuo de paisagem de sonho, ainda melhorada em cada pôr do sol, ou em zonas de rios ou lagos no crepúsculo. Estonteante para os olhos, para a alma, e para as sensibilidades que encostam na arte as alfaias do sublime.

Esta via tinha, entre os nossos viajantes, um conhecedor que muitas vezes a calcorreou desde lá bem mais longe, o Pe. Simão Pedro, que se aprontou para assegurar o nosso almoço num daqueles míticos locais de paragem nas rotas de grandes romagens. Um telefonema para um sítio bem conhecido dele que, por sorte se mantém fiel desde há mais de uma década (ao local e à ementa), foi o prenúncio da paragem numa já grande e simpática cidade, com nome mais chinês do que Português ou Moçambicano – Xai Xai.

A placa informativa da localidade, a ponte de Edgar Cardoso (também autor da Ponte da Arrábida) sobre o soberbo Rio Limpopo, e o esperado restaurante “A Pontinha”, logo ali na margem, a um pouco mais de 200 km da nossa partida. Os afamados pregos lá nos esperavam já prontinhos, acabadinhos de fazer, e uma sala generosa só para nós. Não nos detivemos muito, porque o caminho era longo. A seguir ao bom bife e às respectivas laurentinas e afins, enfiámos na direcção de Changoene, e lá mais a norte, em Chindenguele, parámos para comprar maravilhosos cajus produzidos e torrados ali mesmo, no meio de uma autêntica guerra comercial, mas em que o efeito da oferta e da procura, que são a base da economia moderna, não produzia qualquer efeito sobre o preço.

Foi neste cenário de muita alegria e boa disposição, como quem se sente verdadeiramente a caminho de um dos pontos fortes do programa que, implacavelmente às 6 horas da tarde, a noite caiu sobre a estrada e aquele mundo todo, e sobre nós também, aquele meio pânico com que o desconhecido normalmente nos brinda. A última parte da viagem já foi navegada no meio das trevas mais severas. Íamos guiando o nosso desconhecido pelo GPS, e pela intuição do Pe. Simão que pressupostamente conheceria razoavelmente aquelas paragens. Já na finalização do nosso trajecto, entrámos em picada, e o GPS espeta connosco no meio de um campo de mandioca no quintal de uma casa, e quedou-se mudo. Nós, baralhados, e com a sensação quase absoluta que não estávamos no sítio certo. Alguns companheiros desceram para perguntar ali nuns casebres onde seria o nosso destino, que o GPS referia como sendo ali. Resposta: “O GPS não conhece o mato!“

Efectivamente, não estávamos distantes, mas algo longe. Entre este local e aquele em que deveríamos ter chegado, só se interpunha uma estreita propriedade pública, bem guardada, que contém todo o sistema estratégico da gestão da água da cidade de Inhambane. O que queríamos era logo ali do outro lado, mas teríamos de voltar atrás uns quilómetros para entrar na estrada correcta. Entretanto, fazendo jus a que chegámos à “terra da boa gente”, o simpático senhor disse-nos que ia falar com a segurança do sistema das águas, e se ele abrisse o portão de trás (próximo de onde estávamos), e o portão do outro lado, atravessávamos aqui e não teríamos de fazer esses quilómetros, com grandes probabilidades de voltarmos a invadir outro campo de mandioca. Tudo se postou como queríamos e, finalmente, cá chegámos com considerável atraso, ao nosso lar de Inhambane, em Guiùa, e ao nosso merecido jantar. À nossa espera, já com alguma ansiedade, o responsável por estas maravilhosas instalações, o Pe. Franice, da diocese de Inhambane. Após o jantar, distribuíram-se as casas pelos seus inquilinos e cada um recolheu aos seus aposentos na maior tranquilidade. Ou quase, porque daqui a pouco gerou-se no exterior uma agitação extemporânea, e desadequada, ou muito desproporcionada com o motivo que a provocava. Em dois quartos de duas casas distintas, duas senhoras osgas de grande pança e tamanho exibiam-se nas respectivas paredes, causando grande pânico nas suas hóspedes. Não foi suficiente esclarecer que são completamente inofensivas e, em África, são até muito apreciadas porque, onde há osgas não há mosquitos, esses sim podem ser muito perigosos. Não convenceu as inquilinas que, apesar das trocas efectuadas para afastar os medos, não deixaram nunca de olhar as osgas por cima do ombro, com um escrutínio exaustivo todas as noites na hora de deitar.

O dia seguinte, com a hora de levantar a abater ligeiramente o crédito que se devia ao sono, abrem-se as portas para um exterior paradisíaco que o breu à chegada no dia anterior não tinha deixado vislumbrar. Aqui mesmo, junto às nossas casas na encosta de um ligeiro declive, posta-se sozinho um pequeno edifício redondo – uma fantástica capela – que nos serviu diariamente de local de celebração matinal. Aconchegante, intimista, e onde o convite a entrar e simplesmente estar, vinha de uma tranquilidade e serenidade enorme, natural, que aquele local proporcionava. Podia-se estar simplesmente no silêncio, ou podia estar-se numa celebração coletiva em que todos se viam uns aos outros, numa perspectiva bem arquitectada que ajuda à celebração. Criava um ambiente naturalmente intimista.

Depois do pequeno almoço, fizemos uma visita guiada e explicada com todo o detalhe, à propriedade e às instalações. Estávamos no “Centro de Promoção Humana de Guiúa”. Eram instalações pertencentes aos Missionários da Consolata, mas que foram entregues à diocese de Inhambane, em Março passado. É constituído por uma zona de formação, com auditório, salas de formação, claustro e instalações de apoio; um bloco de serviços com cozinha e refeitório e armazéns; um seminário; uma escola; um centro de saúde com maternidade; um edifício para alojar uma comunidade religiosa feminina; uma igreja paroquial, dado que também ali foi criada uma paróquia para as comunidades da redondeza; outras diversas instalações de apoio e de residência de pessoas ligadas ao serviço do Centro; e finalmente, por umas dezenas de casas familiares para albergar os catequistas em formação durante um ou dois anos, com as suas famílias, que vêm de todo o país, e às quais está afectado também um quintal, de área generosa, onde providenciam o sustento da família durante o tempo da formação. É um Centro completamente inovador, no conceito e no serviço que presta à Igreja de Moçambique, à diocese de Inhambane, e às populações vizinhas. E tem desempenhado um papel fundamental na formação dos catequistas de que já fomos falando ao longo da nossa crónica. Pessoalmente, nunca ouvi falar em nada que se compare com este Centro.

Esta Fazenda tem ainda um outro motivo central de atenção. Aqui, no dia 22 de Março de 1992, deu-se o massacre de Guiùa, em que milícias da Renamo entraram na propriedade onde os catequistas faziam a sua formação, e mataram 24 pessoas, entre adultos, jovens e crianças, num martírio hediondo de perseguição à fé, tendo à frente a mártir Luísa Mafo. São conhecidos como “OS MÁRTIRES DE GUIÚA”, neste momento em processo de Beatificação, cujo proponente é D. Diamantino Antunes. O Centro de Promoção Humana de Guiùa é já local de peregrinação; na última recente concentração, terão estado lá mais de 5.000 fiéis.

Ali estão sepultados os mártires, em local dignamente preservado e identificado e existem dois altares, um em espécie de capela aberta mas coberta, comporta celebrações mais privadas e pequenas – tivemos a oportunidade de ali celebrar neste local especial, no sábado, com a presença também de parte da comunidade residente no Centro, entre as quais a “Mamã Olga”, testemunha ocular do massacre, e que nos descreveu de viva voz e na primeira pessoa, os factos ali ocorridos nessa fatídica noite de 22/3/1992. Contou-nos também pormenores da sua relação e do seu conhecimento pessoal com a mártir Luísa Mafo. Designadamente, referiu-nos um pressentimento que esta terá manifestado na sua comunidade de onde veio para a formação, comunidade essa que a terá, perante a premonição, tentado dissuadir de vir, ao que ela terá respondido que “o que tiver de ser será como Deus quiser; tenho de ir”.

O outro altar está ao fundo do cemitério, mas em zona elevada em relação à suave colina onde se estende até às primeiras casas do Centro, num terreno já de alguma forma reservado e desenhado para receber peregrinos e possível para acolher celebrações grandes. Sentimos e percebemos que estávamos num local muito especial, que fará história na Igreja de Moçambique e será um sítio futuro de grandes manifestações de Fé e religiosidade. Mais: senti-me parte deste sítio, e creio que foi um sentimento comum aos companheiros do grupo. E é um enorme e imperdível privilégio termos morado alguns dias neste local especial, nas mesmas casas em que viveram os “Mártires de Guiùa”, a calcorrear os mesmos sítios, as mesmas salas de formação, a rezar na mesma capela e igreja. D. Diamantino, o propositor da causa de beatificação, escreveu um livro sobre os Mártires de Guiùa, que li integralmente na longa viagem de regresso. (Continua)

Luís Matias (ASDL)

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