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Quinta-feira, Abril 18, 2024

IV – NA TERRA DA BOA GENTE – INHAMBANE (Parte 2)

POR MARES DANTES NAVEGADOS
6ª EDIÇÃO – MOÇAMBIQUE

IV – NA TERRA DA BOA GENTE – INHAMBANE
(Também é lugar de mártires)

Parte 2

Durante a tarde deste primeiro dia de chegada, fomos conhecer a cidade de Inhambane. Uma linda cidade situada numa sub-península de uma península maior com uma reentrância de mar até à foz do Rio Mutamba, braço de mar que cria uma maravilhosa visão marítima absolutamente protegida, como se estivéssemos na presença de um largo rio, com margens, mas que de facto é um elegante e sereno recanto do Índico.

A cidade está muito bem estruturada e preservada, de aspecto ainda praticamente colonial, e onde apetece andar a pé. As avenidas principais são bastante largas e com enormes passeios e jardins. E apesar de ser uma cidade praticamente plana, a vida tende toda a inclinar para o mar, para a marginal.

Visitámos o exterior da catedral antiga, em ruínas, mas com planos de reabilitação, já declarado património protegido. É lindíssima e doi a alma vê-la assim naquele estado. Mas logo ao lado, e sobranceira à marginal e ao mar, a nova catedral, enorme, imponente e moderna, se bem que já tem umas décadas (ainda do fim tempo colonial), e a precisar de algumas obras de conservação.

São os Franciscanos que trabalham a paróquia da Sé, e o Pároco veio simpaticamente mostrar-nos a lindíssima igreja e explicar-nos a sua história. É um edifício de desenho circular, com um altíssimo pé direito, em piso levemente descendente até ao altar mor (tipo anfiteatro), altar mor que é uma verdadeira obra de arte arquitectónica.

Uma enorme claraboia distingue esta zona principal do templo, com um gigantesco Cristo crucificado em cima ao centro, naturalmente emoldurado por uma zona de pintura em vermelho e complementado na parte superior com lambrim de madeira nobre a preencher todo o negativo da cúpula.

Outro apontamento artístico da catedral são as 7 gigantescas janelas ovais colocadas ao alto em cada uma das laterais, que fazem a Via Sacra do templo, de vidro branco em vitral, com os motivos pictóricos desenhados pelos contornos em preto dos caixilhos da constituição do vitral.

Saídos dali, descemos um pouco mais para a avenida central da cidade onde, com o mar ao fundo e a vista da outra margem do golfo, nos sentámos numa simpática e extensa esplanada de café, para afogar o intenso calor africano da tarde, numa laurentina bem fresca, acompanhada de uns bolinhos caseiros típicos que comprámos a vendedora ambulante.

Foi mais um momento de grande alegria e convívio descontraído do grupo, que se estendeu sem grande dificuldade às funcionárias do café, e até de um comércio ao lado, que acabou numa sessão fotográfica. Depois, acabámos de descer a avenida até ao mar, contemplámos e reconhecemos o cenário perfeito para outro desfile fotográfico, fomos visitar a cúria episcopal, e regressámos ao nosso lar naquela latitude, Guiùa.

O resto do dia foi acolher a noite com o jantar, seguido de uma sessão de conversa em sala com gente que tem muito para nos contar e nós para aprendermos. Depois do habitual escrutínio dos espaços individuais para garantir que nenhuma osga está visível a olho nu, cada um com o seu travesseiro, provavelmente, embalou a remoer individualmente este dia tão rico, no sono reparador em que, finalmente, a osgas podem fazer tranquilamente o seu trabalho e, até mesmo, entrarem tranquilamente nos sonos inocentes dos seus invasores.

E no dia seguinte, fomos mais a norte, a Massinga, distando uns 150 Km de Guiùa, onde fomos acolhidos pelo pároco, com visita às instalações da paróquia, respectiva igreja e projectos e obras sociais. Uma comunidade de religiosas, apoiam a paróquia e gerem essas obras sociais. Estas Irmãs serviram-nos num jango um faustoso almoço e mostraram-nos o infantário, frequentemente designado em Moçambique por “escolinha”, e depois uma casa de acolhimento de jovens meninas desprotegidas.

Num outro gracioso jango desta residência, tivemos uma longa conversa com a generosa “mãe da casa” e com as meninas presentes, constatando o maravilhoso trabalho que ali se faz, com tão poucos recursos.

Depois, deslocámo-nos, ainda mato a dentro, numa picada mais complicada de transpor, a uma comunidade distante, viva, num local maravilhoso do nosso planeta, mas perdida nos confins e esquecida: antiga missão de Mangonha. A igreja, de dimensões bastante generosas, é o único edifício conservado de um enorme conjunto de ruínas que estampam o fausto de outros tempos em que ali funcionava uma grande missão da Consolata. Hoje restam os esqueletos, as marcas, mas resta também o fruto da semente plantada, através de uma comunidade viva, de fé, música, de alegria, animada pelos catequistas que procuramos, e que são para nós o paradigma de admiração. Tivemos com eles um curto, mas intenso e maravilhoso momento.

De Massinga saímos já ao cair da tarde para transpor a centena e meia de quilómetros até ao nosso lar de Guiúa, mas nesse percurso tivemos ainda tempo, já ao cair da noite, para um paragem e visita rápida a uma grandiosa casa de missão, desta feita completamente urbana, e onde apreciámos a faustosa e bela igreja. Falámos um pouco com o padre italiano que estava a acabar de celebrar a Eucaristia, e um pouco depois, ainda trocámos umas palavras com o pároco, acabado de chegar. Estávamos em Maxixe, a cidade exactamente oposta e em frente de Inhambane, do outro lado do golfo.

Entrados já tarde na nossa casa de acolhimento, jantámos, e fomos extorquir aos lençóis algum afago aos massacrados músculos e neurónios. E chegámos, finalmente ao esperado e verdadeiro dia de férias. Depois da celebração matinal naquele acolhedor espaço já caracterizado, e do abundante pequeno almoço habitual, em que até a batata doce fez o seu providencial aparecimento, de tão boa, rumámos à conhecida praia do Tofo.

É uma vila de Inhambane que se situa quase na ponta do cabo, cheia de resort’s; cheia também de comércio de rua e de vendedores “lapas” a partir de um bem apetrechado centro comercial de arte africana feito em barracas, situado mesmo junto ao aparcamento da praia. Areia branca fina, maré no seu mínimo, um mar calmo azul turquesa, pelo menos durante a manhã, porque de tarde mudou de figura. Aí demos uso aos fatos de banho, provámos o Índico e, se estivéssemos uns 5 séculos atrás, talvez conseguíssemos enxergar ao largo alguma caravela portuguesa (sem ser as detestadas alforrecas que batizamos hoje com o mesmo nome).

Deu para um passeio longo pela praia, até a uma zona rochosa de corais que entra mar a dentro, só visível com a maré muito baixa, e onde uma frenética actividade destruidora a cargo da população local, extraia ostras e mexilhão já aprisionados no interior dos corais.

À tarde, toda esta zona, incluindo parte da praia, estava submersa, e o banho da tarde adiou-se até nova romagem destes navegantes a Tofo, porque o vento levantou, o mar encapelou-se, e a vontade do banho desvaneceu-se neste cenário. Deu para comprar presentes. Mas mediou, entretanto, um lauto almoço de marisco num simpático lodge mais acima, que valeu bem o dia e amainou o ímpeto da tarde índica menos lograda.

Regressámos a casa, jantámos, e tivemos ainda oportunidade de montar numa das salas do centro de formação, um pequeno serão de conversa com a Irmã Elvira, responsável da comunidade de Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria neste centro, enfermeira e também responsável pelo centro de saúde e maternidade existente aqui em Guiùa.

Foi mais uma magistral aula magna sobre o serviço, entrega e dedicação aos outros, a criatividade que sempre está perpassando por dentro a vida dos missionários, uma lição de humildade. Falou-nos também da sua vocação e do contributo dado pela missão dos seus pais enquanto catequistas e responsáveis de comunidades de Inhambane, de onde é oriunda. (Continua)

LuÍs Matias (ASDL)

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