POR MARES DANTES NAVEGADOS…. Guiné!

DSC08388 (640x480)Éramos 19. “Por mares dantes navegados” – sigla a denunciar intenções de evangelização e bem fazer,  iniciativa da UASP (União das Associações dos Alunos dos Seminários Portugueses), iniciativa nascida no Ano da Fé, promulgado por Bento XVI. Tem por dinamizador principal o incansável P. Manuel Armindo e por agente de programação a Isabel Oliveira, incansável por igual e grande entusiasta da ideia. Cabo Verde foi o clic inicial. Dois anos volvidos, muita avaliação, muita programação, muito sonho… seguiu-se a Guiné. Claro, iniciativa do género vinha maculada com o condão de atiçar recordações de quem um dia teve a dita (infelicidade, talvez) de ter sido mobilizado para a Guiné, na guerra colonial.

Passado ao esquecimento o “levantamento das Caldas” (16 de Março), cada um dos capelães rumou à “sua guerra”. (Rendição individual): O Cruz para o Hospital Militar, o Rui para Tite, o David para Catió, o Fagundes para Pirada e o Artur para Bafatá para secundar o Luciano e lhe suceder nos Batalhões de Bafatá, Galomaro e Bambadinca. Andava um pouco” apanhado do clima”… tinha vindo de Gadamael Porto (um buracão) e precisava de alguém a ajudá-lo na “psico”, bastante alterada, e a criar problemas com as chefias… O Nord Atlas subiu de Bissalanca a Bafatá (era a única via de transporte para o Leste a via aérea…). Ambiente de guerra por todo o lado: fardas, mais fardas, camuflados, divisas, galões, bonés de várias cores, Artilharia leve e pesada, Cavalaria, (sem cavalos mas com chaimites…), Infantaria muita (tropa macaca lhe chamavam), Batalhões, CCS, Companhia 1, 2 e 3, pelotões e secções em “buracos” temíveis (Mato Cão, Dlombi, Cambadju, Chamarra), COP’s, CAOP’s, pistas, heliportos, helicanhões, LDG’s, LDM’s, fuzas, paraquedistas, bombardeiros, Fiats, (já não voavam depois do abate de dois – Ten. Coronel Brito), bombas no QG, no Café Ronda, mísseis terra-ar, canhões sem recuo, agákapa, além da “querida” G3, granadas, munições, RPG e que mais?… Berliet’s, Unimogs, o “burrito”, chaimites, waites, jeeps… ei! tanto ferro que ficou naquela pista de Bafatá! Santo Deus!

BAFATÁ

Saímos a porta da Cúria, olhos bem abertos para reconhecer terrenos pisados há 40 anos! Foram apenas 6 meses, mas deu para lembrar de memória tudo o que de bom e de menos bom por aqui se passou. Fomos celebrar à Catedral com o Bispo. Airosa, engalanada de motivos de festa, bem cheirosa, bem preparada, jovial. Há ali mão de missionário, de evangelizador e de comunidade viva e consciente no meio duma “muçulmanização” que atinge os 36%.

Outrora, mal cheirosa, dos milhares de morcegos que infestavam os telhados, despida, lúgubre, votada apenas a umas celebrações fúnebres ou de despedida de companhias, onde acorriam alguns militares e alguns autóctones, dois padres idosos (do PIME) e o irmão Luís… sempre agastado, à italiana…

Ali fui chamado pelo capitão da Cavalaria, pouco depois de assentar arraiais no teatro de guerra: “Ó capelão, temos aí um trabalhinho para amanhã”. Foi o meu “baptismo de fogo”: missa para 4 urnas, mais uma que ficou de fora por causa do mau cheiro… Tinham sido emboscados na estrada (asfaltada) Bafatá-Gabú, minada, e atacados com rochets de cima das árvores. Um deles caiu mesmo na escotilha da Chaimite, aberta por causa do calor e de muita negligência…

Foi uma celebração vivida sem dúvida, mais do que aquela, claro, que cheirava a morte, a ódio, a medo… (com escolta militar e bandeira nacional). Esta exalava clareza, devoção, amor, ornada de flores, exultativa, a significar ressurreição e vida nova. É a esperança duma cristandade, minoritária, é certo, mas viva, consciente, alegre, ousada, jovem, mexida, com cantos, palmas, ritmo e vida!  Encheu um coração que naquele mesmo altar um dia ali se contraiu e se constrangeu com tanta formalidade oficial… memória de morte.

Saímos. Olha o posto da Sacor! Está ali a guarita, um poste meio derrubado, as duas bombas (gasóleo e gasolina), esmorecidas por falta de trabalho, ainda a mostrarem envergonhadamente os números na ranhura da contagem.

Olha a subida para a Missão e para as irmãs Franciscanas (lembra-se, irmã Alzira? – tão jovem!). Está na mesma porque nunca deixou de ser um trilho na rocha vulcânica, ferrosa e rugosa! Olha! A estrada por onde da CCS e da messe de oficiais se subia para a tabanca, para a pista e para a Cavalaria! Que movimento de carros e pessoas! O alcatrão derreteu, a chuva esburacou, há verdadeiros precipícios, o lixo acumulou. Cuidado, onde pões os pés! Olha o entorse! Não caias no buraco!

Visita à Casa das Mães

Ali perto, mesmo no alto, nas cercanias da Cúria,  há um espaço que serve de Centro de Saúde, onde pacientes, calmos e pachorrentos, aguardam. Mesmo ao lado, duas ambulâncias num pátio. Por aí se entra para a “Casa das Mães”. Interessante! Apoio às grávidas que nas Tabancas não têm hipótese de assistência digna e salubre. São acolhidas pela instituição, magnificamente orientada por profissionais e voluntários, de base religiosa. Têm possibilidade de observações clínicas na gestação, assistência no parto e condições de aprendizagem de cuidados alimentares para os primeiros tempos dos bebés. Vão-se ocupando em trabalhos simples, em tarefas secundárias como a descasca do amendoim, trabalhos de costura ou tecelagem e outras…

Vê-se progresso em instituições organizadas e suportadas por algumas ofertas que vêm de fora, sempre com base sobretudo em instituições religiosas.

AO – (Alferes capelão)

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2 thoughts on “POR MARES DANTES NAVEGADOS…. Guiné!

  1. M. Frazão
    Sábado, 5 de Março de 2016 at 18:31

    Amigo P. Artur:

    És um realista convicto. Nem mais! A forma simpática, sentida e pormenorizada com que nos relatas aquilo que os teus olhos, agora (Janeiro 2016), viram e recordaram o que gravaram em 1974, são uma boa peça histórica da acção e do pensamento de ontem e de hoje.

    “FOI EM BUBA”! … Há quanto tempo eu te questionara, se sabias, em que zona da Guiné tinha falecido o nosso ex-companheiro do Seminário de Leiria e nosso ex-colega Alferes Mil.º Américo Henriques. Quem diria: faleceu em BUBA, aquela terra que me recebeu a 04/11/1972 com destino a Aldeia Formosa. Recordo que Buba pertencia ao Comando / Sector de Aldeia Formosa, assim como ao “meu” Destacamento da Chamarra, que tu muito bem conheceste, e, onde, praticamente, fiz toda a minha comissão. A minha intromissão bélica naquele destacamento que comandei com arrojados militares africanos e milicías era de tal abnegação e espírito de missão que só depois de lá sair (Agosto de 74) é que tive consciência e a noção dos perigos e insegurança que nos rodeava. Basta dizer-te, Artur, que em linha recta estaria a 20 Kms do célebre corredor de Guilege, junto à fronteira com a Guiné-Conacri, santuário dos nossos “amigos” do PAIGC.

    Recordo muito bem a visita surpresa que, simpaticamente, me fizeste, na Chamarra, e o contentamento dos nossos militares africanos e “metropolitanos” em receber-te e penso que a Chamarra soube honrar a tua visita. E aquele calor escaldante que a seguir ao almoço não foi impedimento impediente de uma renhida jogatana de futebol com as “maluqueiras” do nosso amigo Penim (era o meu responsável pelas armas pesadas), mais tarde viemos encontrá-lo, em Leiria,na feira de Maio, o Penim das farturas. Enfim, devaneios da nossa “jeunesse” que tão bem gravados estão.

    Continua, Artur, com teus apontamentos de circunstância a que já nos habituaste.

    Um abraço / M. Frazão

  2. Joaquim Luís fernandes
    Terça, 2 de Fevereiro de 2016 at 00:48

    Obrigado Padre Capelão, Artur Oliveira, pelo testemunho e pela brilhante narrativa!
    Foram só 6 meses, mas vividos com muita intensidade! Foram 6 meses que viraram a história às avessas e onde tanta coisa aconteceu. Foram 6 meses que te marcaram! E eu fui testemunha das reacções e emoções que o regresso aos espaços e às gentes despoletaram, em Bafatá, mas também em Bissau e noutros lugares.

    Em 1974, também estava lá ! Em Bissau! Vivi a expectativa do que estava para acontecer! sabia do que se ia passando lá pelo mato, pelos burakos do Norte, do Leste, do Sul… Mas também pelo interior, Caboiana, Morés…
    Vi e senti nos semblantes amargurados, dos soldados que passavam pelo Depósito de Adidos, o quanto sofriam e me faziam sofrer.
    Era grande o desejo do fim da guerra e do regresso a casa.

    Em 1973, também eu atirado para o mato, como carne para canhão!
    Creio ter tido protecção Divina! (Falarei disso noutra ocasião) Nenhum mal de maior me aconteceu.
    Mas sofri que baste!
    Tive um amigo que me ajudou a superar muito desse sofrimento.
    O Capelão, na altura Alferes e mais tarde Tenente, João Baltar!
    Aqui deixo a minha homenagem a esse amigo que já partiu para o Pai.
    Que Deus o tenha na Sua Glória.

    Abraços.

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