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Sábado, Dezembro 04, 2021

“E EÇA, HEIN?”

(Os estrangeirismos de Eça de Queirós)

Titulo este texto com uma homofonia (palavras homófonas: têm a mesma pronúncia, mas grafia e significado diferentes, lembram-se?) que simultaneamente nos remete para o saudoso Fernando Pessa e o consagrado Eça de Queirós. Lanço o holofote a este último.

Não sou crítico literário nem faço juízos de valor de escritores, muito menos se conceituados, que ocupam um espaço a que ascenderam com razão. Dessa tarefa se encarrega, com saber e brilho comprovados, a nossa professora Maria do Carmo Sequeira. Limito-me a constatar algo que possa colidir com parâmetros que regem a utilização da língua portuguesa.

“Os Maias”, “A cidade e as Serras”, “A Ilustre Casa de Ramires”, “O Primo Basílio” são algumas das obras que alcandoraram o seu autor à “muito alta categoria dos artistas criadores”, segundo Guerra Junqueiro, na obra “Portugal no Mercure de France”, de Philéas Lebesgue (tradução de Madalena Cruz e Liberto Cruz), publicada pela Roma Editora, em 2007 (p. 76), onde também se lê que Eça “perdeu, à força de se inclinar sobre si, a fuga veemente do extraordinário Camilo.” Isto para dizer que a um alto lugar no pódio da escrita é inerente o natural cuidado pela palavra.

Este meu complemento vem a propósito de um “post” que aqui coloquei no passado dia 10, insurgindo-me contra o uso, na actualidade, de anglicismos na escrita (e na fala). A utilização de palavras inglesas, quando para as quais há correspondência em português, é uma “mancha” no nosso idioma. Para tal, hoje, claro, não é lenitivo afirmar-se que já há 150 anos um dos nossos maiores escritores incorria no mesmo dislate. Sim. Se bem que da leitura de alguns dos títulos de Eça não sejamos muito incomodados com tal deslize, há outros em que somos apanhados em tal chuvada de estrangeirismos, que nos perguntamos porquê. Talvez se possa, julgo, com propriedade, afirmar que Eça de Queirós era, neste campo, impulsivo. Adorava o brilho do estrangeirismo. Em ”O Primo Basílio” muitas páginas são “salpicadas” de palavras francesas; “Os Maias” está pejado de termos e expressões em inglês, perfeitamente dispensáveis, já que podiam ser substituídos na linguagem em português.

Mas, se em algumas obras o “colorido” de ter vivido além-fronteiras” poderia lançar um pouco de água benta sobre esta tendência, não consigo compreender que nos “Textos do Distrito de Évora” (1 e 2) tal se verifique tão assiduamente. Alguma razão especial? Intencionalmente? Diplomata, viajado, portanto, e culto que era, poderia Eça valer-se de um pouco de ostentação, presunção, exibicionismo e até vaidade, sem que tal constituísse pecado de monta? Se calhar não.

Vejamos – e espantemo-nos – o incrível número de vezes que os anglicismos ganham lugar nas páginas das duas obras atrás referidas:

“Textos do Distrito de Évora 1” (Círculo de Leitores, Agosto de 1980) (os números que se transcrevem indicam as páginas):
“meeting” (reunião) – 60, 201, 238, 261, 268
“policeman” (polícia) – 138, 164
“workhouse” (hospício) – 138
“coroner” (juiz de instrução) – 139
“thugs” (bandidos) – 81
“bill” (projecto de lei) – 152, 261
“trade unions” (sindicatos) – 206
“gentleman” (cavalheiro) – 174
“Textos do Distrito de Évora 2” (Círculo de Leitores, Novembro de 1980):
“high-life” (alta vida/vida à grande e à francesa) – 94, 95, 295, 303
meeting(s) (reunião/reuniões) – 147 (2x), 148 (8x), 149 (3x), 183, 197, 202, 203 (2x), 219, 335, 336 (2x), 341, 352

Camilo também era culto (como muitos outros escritores). Inclui citações em latim nalgumas obras. Que não chocam, como os estrangeirismos de Eça. Porque o latim é a fonte, a raiz, a “mãe” do idioma português.

Pessoa também era culto. Cresceu a falar inglês. Só o lemos, porém, em termos nossos. Que “a sua Pátria era a língua portuguesa.” Poderia Eça de Queirós dizer o mesmo?

Lauro Portugal, AAACombonianos de Portugal

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