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Sábado, Maio 15, 2021

Fazer nada…

– Chegou o dia em que, finalmente, vou poder fazer aquilo que gosto! –

Exclamava jubilosamente o funcionário, na sua pose anafada e balofa, que os excessos acumulados no desfiar dos dias proporcionaram, ainda mais vaidoso que o habitual, após receber a notificação de que chegou a ansiada aposentação.

O contínuo, termo hoje em desuso, substituído pela modernista designação de “auxiliar administrativo” neste afã de apagar as tradições, mas cujo conteúdo funcional nada mudou, sempre bajulador perante os seus mandantes intermédios ou superiores, perguntou a medo:

– E o que é que o senhor vai fazer que lhe inspire tanta satisfação?

– Nada! – Respondeu orgulhosamente o interpelado – Nada, foi o que sempre aspirei fazer!

O contínuo engoliu em seco, mas pensou para com os seus botões, de facto por aqui também pouco fizeste. Via-te habitualmente escrevendo, à mão ou à máquina, de perna cruzada, com o tronco afastado da secretária cujo espaço inferior era insuficiente para acomodar as gambetas nessa insólita posição para quem recebe um salário, mais parecendo um zombie de braços e pescoço estendidos, além de saltares de secretária em secretária cochichando e metendo veneno.

Esse homem fora velho a vida inteira! É antigo o aforismo que dita: “Velho é aquele que julga que sua missão está cumprida! Velho é aquele que se levanta sem objectivos e se deita sem esperança”.

É legítimo aspirar a um “dolce far niente”, depois de décadas de trabalho ou mesmo após umas intensas horas de labuta do dia-a-dia. Sem dúvida que sim, mas como projecto de vida é insano!

Vem isto a propósito destes insólitos dias que, está-se mesmo a ver, muitos vão aproveitar para fazer aquilo que sempre quiseram: “nada”! Nem sequer o tal “dolce far niente”, que se bem vivido, até nos pode inspirar novas ideias e projectos. É o olhar sem esperança para o hoje toldado horizonte que urge reverter, acreditando em nós, no próximo, mas também no transcendente que nos ajuda a moldar as dificuldades.

Curiosamente, neste momento, não fazer “nada” é melhor do que fazer algumas coisas, ir à rua sem motivo relevante, passear, conviver! Para aqueles a quem o confinamento se impõe é, de facto, bom que não façam nada fora de casa. Que não esqueçam que temos uma imensidão de coisas para fazer dentro de casa e dentro de nós!

Pensar é uma boa escolha para o confinamento, aliás é uma boa forma de viver o “dolce far niente” seja pelos nossos próprios meios cognitivos, seja através da leitura, que hoje é possível mesmo sem dispêndio significativo de recursos, perante a imensidão de livros que a massificação da informação nos proporciona, mas “livros edificantes” lembrando com saudade os tempos de seminarista quando nos era aconselhado vivamente este tipo de leitura. De facto, é necessário saber escolher ou pedir à máquina que nos recomende e, a máquina” recomenda!

Bem interessantes para compreendermos melhor a história e também nos deliciarmos com um tipo de escrita singular, é a “Chrónica do Condestabre”, de autor desconhecido, ou mesmo as “Chrónicas de El-Rei D. João I”, de Fernão Lopes, disponíveis para “download” na Biblioteca Nacional de Portugal, que nos narram como se vive uma vida sempre a fazer alguma coisa e fazer o bem com os seus próprios meios. Não clamando para que se faça o bem e ajude terceiros com os bens dos outros, salvaguardando os seus… É a história de S. Nuno de Santa Maria que, enquanto “Beato Nuno” foi padroeiro do Seminário Carmelita. Que político! Rico, Virtuoso, Magnânimo e, finalmente, pobre entre os pobres, como corolário de vida!

Ainda no campo da leitura, achei curiosa a expressão do meu oftalmologista, após eliminação das cataratas que me toldavam os olhos, mas também o espírito:

– Agora não vai precisar mais de óculos, a não ser para ler a Bíblia!

– Nem para isso vão ser necessários! No computador está toda a Bíblia ao alcance de qualquer um e eu próprio defino o tamanho da letra! Hoje quase toda a gente a pode ler – retorqui-lhe.

E, agora, ler a Bíblia também é sem dúvida uma boa opção para reencontrar força e discernimento para enfrentar as provações que todos, em maior ou menor grau, expiamos.

Pandemias ou pestes sempre houve ao longo dos tempos e, dizem os especialistas, serão cada vez mais frequentes por reacção da natureza ao mal que não cessamos de lhe causar.

O Salmo 91 da Bíblia foi escrito em tempos de pandemia e, se calhar, não fica mal relembrá-lo. Mesmo quem não acredita tem ali uma boa fonte de inspiração, nem que mais não seja encontrar-se com o que tanta força dá a outros, experimentando novos rumos:

… Não temerás o terror de noite,
nem a seta que voa durante o dia.
Nem a peste que alastra nas trevas,
Ou o flagelo que tudo destrói ao meio-dia.
Podem cair mil à tua esquerda, e dez mil à tua direita,
Tu não serás atingido
Desde que abras os olhos
Logo verás a recompensa dos ímpios…

Nestes dias que nos assolam, pratiquemos o “nosce te ipsum” planeando caminhos com novos projectos de vida a que muitos não vão poder escapar, ou então optando pela realização de tantas pequenas coisas que deixamos de fazer por falta de tempo e que agora temos em abundância.

Fazer “nada” não é solução!

Américo Vinhais, AAACarmelitas

2 thoughts on “Fazer nada…

  1. Boa noite, O salmo 91 foi a minha leitura da manhã de hoje. Quanto ao tema, interessante, tenho todos os dias “milhentas” ocupações.
    Parabéns pela mensagem muito oportuna e sábia.
    Abraço.

  2. Obrigado pelo mail.
    O “fare niente” pode ser um apelo.
    Neste tempo tão singular, entre lay-off de empresas, comunicações de trabalhadores em apoio à família, isolamentos profiláticos, baixas, medidas de apoio às empresas com as mais diversas nuances, interpretação de normas jurídicas retirando delas as cascas de festivos anúncios na comunicação social e depois o que sobra é quase nada, mais o trabalho que normalmente já se fazia, mais análises de margens e rentabilidades quase à semana, espargatas mentais à procura de possíveis soluções de gestão que mantenham as empresas a respirar, esse tal “dolce” por aqui é mesmo uma miragem.
    Compreendo que noutros lugares as realidades serão outras. Em qualquer espaço, em qualquer tempo que nenhum momento seja o de fazer nada. De todos os recursos o que não se renova é o tempo de cada um de nós. Despois de consumido nunca mais será reposto.
    É o fazer que nos lembra o que somos. A começar pela reflexão no acordar de cada dia.
    Saudações
    Luís Vieira

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