Tomás de Celano, biógrafo de Francisco de Assis, escreveu sobre a morte do Santo o seguinte: “Passou em acção de graças os poucos dias que lhe restaram de vida e convidou os companheiros mais queridos a louvarem com ele a Cristo. Francisco “entoou como pôde o salmo”: “Em alta voz clamo ao Senhor, em alta voz imploro o Senhor…”. E continua: “Convidou também todas as criaturas a louvarem a Deus e, com estrofes que já antes compusera, exortou-os a amá-LO. Até a própria morte, para todos tão odiosa e terrível, ele exortava ao louvor, e, saindo-lhe ao encontro com ânimo alegre, convidou-a a hospedar-se em sua casa”: “Bendita seja – dizia – a minha irmã morte”. Francisco, já moribundo, pediu para ser embrulhado numa serapilheira e colocado no chão. Pediu, depois, a um irmão que lhe lesse a Paixão de Cristo do Evangelho de São João. Na tarde de sábado, mesmo antes do cair da noite, um grande bando de cotovias voou em círculo por cima da cela onde Francisco jazia, enchendo o ar com a sua música. A cotovia era o seu pássaro favorito, porque tinha um “hábito castanho e um capuz”. Nessa noite os frades mantiveram a vigília ao corpo de Francisco, recitando o Saltério e outras orações para os defuntos. O Cantor da Natureza, Irmão Universal, viveu heroicamente o Evangelho. É um dos santos mais populares e amado da Igreja Católica. Sentiu o Chamamento divino para reconstruir a Igreja com a radicalidade da fé e o amor a Jesus Cristo. E desse amor profundo amou também todas as criaturas. Um místico da Natureza, ecologista, pacifista, uma “Voz do nosso tempo”! O “grito da Terra” pede-nos que assim seja.
Neste ano Jubilar Franciscano em que a Ordem dos Frades Menores celebra solenemente os 800 anos da sua morte, os Irmãos e Padres Franciscanos continuam a aproximar os homens de Deus e a cuidarem com zelo da nossa “Casa Comum”. Francisco dizia aos seus irmãos: “….vamos por todo o mundo exortar mais com o exemplo do que com as palavras”. O “grito da Terra” pede-nos que assim seja, porque os povos, mormente os mais pobres, em todos os continentes, sentiram as dramáticas e dolorosas consequências do aquecimento global, dos ventos ciclónicos, dos sismos e de outros fenómenos extremos… Recordamos bem, com profunda tristeza, os últimos acontecimentos, de destruição e morte, em Portugal, na Venezuela, Colômbia, Indonésia, Nepal….
O Papa Leão XIV, inspirado no Santo de Assis, como o seu predecessor de boa memória, (com as Encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti), associa-se às celebrações solenes, louvando o Senhor com esta bela oração que vamos acompanhar:
“São Francisco, nosso irmão,
tu que, há oitocentos anos,
ias ao encontro da irmã morte
como um homem pacificado,
intercede por nós junto do Senhor.
Tu que no Crucifixo de São Damião,
reconheceste a verdadeira paz,
ensina-nos a buscar n’Ele
a fonte de toda a reconciliação,
que derruba todos os muros.
Tu que desarmado,
atravessaste as linhas da guerra
e da incompreensão
concede-nos a coragem
de construir pontes
onde o mundo ergue fronteiras.
Neste tempo afligido
por conflitos e divisões,
intercede para que nos tornemos
construtores da Paz:
testemunhas desarmadas
e desarmantes
da Paz que vem de Cristo.
Ámen
LEO PP. XIV
Alfredo Monteiro (AAAFranciscanos)
