DISCORRENDO SOBRE A FÉ QUE NOS MOVE – Parte I

Os dias 24 e 25 de Novembro amanheceram chuvosos, com uma chuva suave, ordeira e prometedora para os campos que nesta altura nos oferecem já imensidões de um verde vivo, o verde da esperança, a esperança que a todos nos move rumo a um futuro melhor.

Também nesses dois dias, por iniciativa da UASP – União das Associações dos Antigos Alunos dos Seminários Portugueses, na “Domus Carmeli”, uma casa património da Ordem dos Padres Carmelitas Descalços, em Fátima, no decurso do seu V Fórum animado pelo tema “O Acesso à Experiência da Fé, Hoje!”, se ouviram ali, bem protegidos da precipitação exterior, torrentes de palavras suaves, ainda que firmes, ordeiras e prometedoras, rumo ao reavivar e aprofundar a Fé de cada um, que ali se proclamou de várias perspectivas, com uns laivos de crítica à forma como a Igreja Católica a proclama e divulga, mas sempre a mesma Fé em Deus, Deus Uno e Trino.

Dizia o doutor José Milhazes, convidado para abordar uma “Leitura dos sinais dos tempos”, antigo aluno do seminário comboniano, o primeiro orador convidado, antecedido por palavras de boas-vindas, por parte da Organização e dos anfitriões, que “quanto mais culta é a fé, mais sólida ela é”, de certo modo em contraponto com o que por aí se diz que o conhecimento, vai reduzindo a necessidade de religião.

De facto, o orador afirmou que o que hoje importa é a cultura, o conhecimento e a fé, atrevendo-se a alvitrar que a História é talvez a ciência mais inútil à face da terra, porque é esquecida, repetindo-se assim os erros do passado, começando a Europa de hoje a assemelhar-se à Europa dos inícios do século XX, época de utopias malditas, onde começam a sobressair grupelhos sem expressão significativa no contexto nacional, que necessitam de estar no centro das atenções para sobreviver e que face à sua persistência e fácil acesso aos meios da comunicação social, têm um tempo de antena desproporcional ao peso que de facto têm na sociedade, em contraponto à Igreja Católica que não aproveita convenientemente as oportunidades de intervenção.

E apontou exemplos como o episódio da Dina Aguiar em que se despediu dos seus telespectadores com um sentido “até amanhã, se Deus quiser” e que redundou numa enxurrada de críticas à jornalista, sem que a Igreja Católica, ou os católicos em geral, se indignassem com veemência e publicamente. Se se despedisse com “um até amanhã camaradas!” provavelmente passaria incólume à esquerda e à direita.

A Igreja tem que ser preventiva e agir para resolver os seus problemas, intervir socialmente em casos como os da greve dos estivadores em Setúbal, revelando a sua posição em áreas críticas porque posições dúbias não ajudam à sua afirmação. Se a Igreja faz apenas casamentos e baptizados, não serve. É necessária uma Igreja que fale dos problemas e das comunidades. Não deve pensar apenas em apagar o fogo quando a casa já arde. É a intelectualidade que chega aos mais humildes e por isso a Igreja não deve ter medo de assumir a sua verdade, afirmando a sua posição concreta, mesmo em casos difíceis. Terminou dizendo que se diluem os princípios e, nesse quadro, está pessimista quanto ao futuro.

Ainda na manhã de sábado foi tempo de olhar para “A transmissão da Fé entre gerações” e escutou-se a afirmação da Fé, na perspectiva dos filhos, dos pais e dos avós e foi muito agradável ouvir o testemunho de um antigo aluno, o dr. Fernando Capela, percorrer a escala da sua evolução como homem de fé, uma fé compartilhada no seio da sua família onde despontou, aprofundou no seminário e teve também uma fase de pré-divórcio, seguida de um curto período de divórcio quase total por alturas em que cursava direito em Coimbra, ainda que não tivesse perdido o contacto total com a igreja. Reaproximou-se depois e actualmente frequenta a igreja de novo e tem tempo para Deus, afirmando até que a melhor experiência que teve foram aqueles três anos em que, já formado em direito, ministrou catequese aos miúdos. Concluiu que não sabe se é um homem de fé, mas tem a certeza que nos seus quarenta anos de vida Deus tem andado por ali.

Como agradável foi ouvir a drª Maria Clara Oliveira, na perspectiva de educadora dos seus filhos, mas também dos seus alunos, que encontra frequentemente em Fátima, terra de Fé por excelência o seu porto de abrigo. Tem educado os seus filhos na Fé em Deus, mas lembrou Madre Teresa de Calcutá: –“Os filhos são como as águias, ensinarás a voar mas não voarão o teu voo. Ensinarás a sonhar, mas não sonharão os teus sonhos. Ensinarás a viver, mas não viverão a tua vida. Mas, em cada voo, em cada sonho e em cada vida permanecerá para sempre a marca dos ensinamentos recebidos”. No seu mister concluiu que a regra é os pais preocuparem-se mais com a formação intelectual. A educação moral e religiosa da escola não é catequese, faltando ali um espaço onde se possa discutir a fé. A educação deve provir do exemplo. Concluiu afirmando que estamos num tempo em que os jovens não ouvem a voz do silêncio no seu dia-a-dia, mas apreciam-no quando o conseguem viver.

Para terminar a manhã de sábado, escutou-se o dr. José Luís Ponte a falar da “Transmissão da Fé na geração dos avós” e tem como máxima, na perspectiva de Rotário que é, que se educa pelo exemplo. E com o exemplo devemos praticar a sedução, e afirmou que o seminário o seduziu pelo lado do teatro, ver o padre na sua importância no altar! Faltam jovens nas igrejas e questionou: Se os familiares transmitem a fé, então o que falta? – Falta os educadores abordarem as questões com firmeza e exigência. Invocou Daniel Sampaio e a sua obra “A razão dos avós”, segundo o qual são os avós que têm disponibilidade para educar os netos com prazer, não por dever ou missão. Os avós trazem as tradições e os rituais característicos das gerações que desapareceram, são um tesouro que não podem ser roubados às gerações. Apelou de seguida para Ubiratan D’Ambrósio que aponta quatro necessidades básicas dos educandos: – Serem acolhidos e reconhecidos como humanos; Serem ajudados no processo de crescimento; Serem amados e amarem e, finalmente, serem protagonistas do seu viver e da construção da sua história.

O homem deve estar atento à sua memória, às suas origens, cada um tem a sua, sendo sempre herdeiro, sendo por isso conveniente apelar à memória. Continuou afirmando que vivemos uma pública ausência de “compromisso com a verdade”. Corremos cinco perigos culturais: – O utilitarismo → Quanto me dás?; O consumismo → Quanto mais tiveres melhor; O individualismo → Quanto mais conhecimento eu esconder dos outros mais progrido; A despersonalização → Anonimato social e, finalmente, a ambiguidade das relações sociais. A crise que se vive é civilizacional pois o homem foi retirado do centro das decisões.

Em presença do utilitarismo deve contrapor-se a gratuidade; ao individualismo, a solidariedade; à indiferença, o compromisso. Compete à Igreja Católica encontrar tempos/espaços/técnicas que lhe permitam trabalhar a família pondo alguma ênfase nos avós e citou Confúcio: “A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda.” Terminando assim os trabalhos da manhã.

Américo Lino Vinhais
Gabinete de Comunicação

One thought on “DISCORRENDO SOBRE A FÉ QUE NOS MOVE – Parte I

  1. Sexta, 30 de Novembro de 2018 at 21:22

    ……..”Batem leve, levemente,
    Como quem chama por mim…..
    Será Chuva? Será gente.?….”
    Em Fátima e no Fórum, como diz o autor do texto em apreço, era realmente chuva e eu digo, também, gente….E foi muito agradável escutar boa gente que, no silêncio e na Palavra, nos fez, nestes dois dias, refectir, meditar e interpelar….
    Saudações franciscanas de Paz e Bem

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